CÓDIGO DA INSOLVÊNCIA E DA RECUPERAÇÃO DE EMPRESAS
Actualizado até ao DL 200/2004, de 18/08
TÍTULO I
Disposições introdutórias
Artigo 1.º
Finalidade do processo de insolvência
O processo de insolvência é um processo de execução universal que tem como
finalidade a liquidação do património de um devedor insolvente e a repartição do
produto obtido pelos credores, ou a satisfação destes pela forma prevista num
plano de insolvência, que nomeadamente se baseie na recuperação da empresa
compreendida na massa insolvente.
Artigo 2.º
Sujeitos passivos da declaração de insolvência
1 - Podem ser objecto de processo de insolvência:
a) Quaisquer pessoas singulares ou colectivas;
b) A herança jacente;
c) As associações sem personalidade jurídica e as comissões especiais;
d) As sociedades civis;
e) As sociedades comerciais e as sociedades civis sob a forma comercial até à
data do registo definitivo do contrato pelo qual se constituem;
f) As cooperativas, antes do registo da sua constituição;
g) O estabelecimento individual de responsabilidade limitada;
h) Quaisquer outros patrimónios autónomos.
2 - Exceptuam-se do disposto no número anterior:
a) As pessoas colectivas públicas e as entidades públicas empresariais;
b) As empresas de seguros, as instituições de crédito, as sociedades
financeiras, as empresas de investimento que prestem serviços que impliquem a
detenção de fundos ou de valores mobiliários de terceiros e os organismos de
investimento colectivo, na medida em que a sujeição a processo de insolvência
seja incompatível com os regimes especiais previstos para tais entidades.
Artigo 3.º
Situação de insolvência
1 - É considerado em situação de insolvência o devedor que se encontre
impossibilitado de cumprir as suas obrigações vencidas.
2 - As pessoas colectivas e os patrimónios autónomos por cujas dívidas nenhuma
pessoa singular responda pessoal e ilimitadamente, por forma directa ou
indirecta, são também considerados insolventes quando o seu passivo seja
manifestamente superior ao activo, avaliados segundo as normas contabilísticas
aplicáveis.
3 - Cessa o disposto no número anterior quando o activo seja superior ao
passivo, avaliados em conformidade com as seguintes regras:
a) Consideram-se no activo e no passivo os elementos identificáveis, mesmo que
não constantes do balanço, pelo seu justo valor;
b) Quando o devedor seja titular de uma empresa, a valorização baseia-se numa
perspectiva de continuidade ou de liquidação, consoante o que se afigure mais
provável, mas em qualquer caso com exclusão da rubrica de trespasse;
c) Não se incluem no passivo dívidas que apenas hajam de ser pagas à custa de
fundos distribuíveis ou do activo restante depois de satisfeitos ou acautelados
os direitos dos demais credores do devedor.
4 - Equipara-se à situação de insolvência actual a que seja meramente iminente,
no caso de apresentação pelo devedor à insolvência.
Artigo 4.º
Data da declaração de insolvência e início do processo
1 - Sempre que a precisão possa assumir relevância, as referências que neste
Código se fazem à data da declaração de insolvência devem interpretar-se como
visando a hora a que a respectiva sentença foi proferida.
2 - Todos os prazos que neste Código têm como termo final o início do processo
de insolvência abrangem igualmente o período compreendido entre esta data e a da
declaração de insolvência.
3 - Se a insolvência for declarada em processo cuja tramitação deveria ter sido
suspensa, nos termos do n.º 2 do artigo 8.º, em virtude da pendência de outro
previamente instaurado contra o mesmo devedor, será a data de início deste a
relevante para efeitos dos prazos referidos no número anterior, o mesmo valendo
na hipótese de suspensão do processo mais antigo por aplicação do disposto na
alínea b) do n.º 3 do artigo 264.º
Artigo 5.º
Noção de empresa
Para efeitos deste Código, considera-se empresa toda a organização de capital e
de trabalho destinada ao exercício de qualquer actividade económica.
Artigo 6.º
Noções de administradores e de responsáveis legais
1 - Para efeitos deste Código, são considerados administradores:
a) Não sendo o devedor uma pessoa singular, aqueles a quem incumba a
administração ou liquidação da entidade ou património em causa, designadamente
os titulares do órgão social que para o efeito for competente;
b) Sendo o devedor uma pessoa singular, os seus representantes legais e
mandatários com poderes gerais de administração.
2 - Para efeitos deste Código, são considerados responsáveis legais as pessoas
que, nos termos da lei, respondam pessoal e ilimitadamente pela generalidade das
dívidas do insolvente, ainda que a título subsidiário.
Artigo 7.º
Tribunal competente
1 - É competente para o processo de insolvência o tribunal da sede ou do
domicílio do devedor ou do autor da herança à data da morte, consoante os casos.
2 - É igualmente competente o tribunal do lugar em que o devedor tenha o centro
dos seus principais interesses, entendendo-se por tal aquele em que ele os
administre, de forma habitual e cognoscível por terceiros.
3 - A instrução e decisão de todos os termos do processo de insolvência, bem
como dos seus incidentes e apensos, compete sempre ao juiz singular.
Artigo 8.º
Suspensão da instância e prejudicialidade
1 - A instância do processo de insolvência não é passível de suspensão, excepto
nos casos expressamente previstos neste Código.
2 - Sem prejuízo do disposto na alínea b) do n.º 3 do artigo 264.º, o tribunal
ordena a suspensão da instância se contra o mesmo devedor correr processo de
insolvência instaurado por outro requerente cuja petição inicial tenha
primeiramente dado entrada em juízo.
3 - A pendência da outra causa deixa de se considerar prejudicial se o pedido
for indeferido, independentemente do trânsito em julgado da decisão.
4 - Declarada a insolvência no âmbito de certo processo, deve a instância ser
suspensa em quaisquer outros processos de insolvência que corram contra o mesmo
devedor e considerar-se extinta com o trânsito em julgado da sentença,
independentemente da prioridade temporal das entradas em juízo das petições
iniciais.
Artigo 9.º
Carácter urgente do processo de insolvência e publicações obrigatórias
1 - O processo de insolvência, incluindo todos os seus incidentes, apensos e
recursos, tem carácter urgente e goza de precedência sobre o serviço ordinário
do tribunal.
2 - Salvo disposição em contrário, as notificações de actos processuais
praticados no processo de insolvência, seus incidentes e apensos, com excepção
de actos das partes, podem ser efectuadas por qualquer das formas previstas no
n.º 5 do artigo 176.º do Código de Processo Civil.
3 - Todas as publicações obrigatórias de despachos e sentenças podem ser
promovidas por iniciativa de qualquer interessado que o justifique e requeira ao
juiz.
4 - Com a publicação, nos lugares próprios, dos anúncios requeridos neste
Código, acompanhada da afixação de editais, se exigida, respeitantes a quaisquer
sentenças ou despachos, à convocação das assembleias de credores e às
respectivas deliberações, consideram-se citados ou notificados todos os
credores, incluindo aqueles para os quais a lei exija formas diversas de
comunicação e que não devam já haver-se por citados ou notificados em momento
anterior.
5 - Têm carácter urgente os registos de sentenças e despachos proferidos no
processo de insolvência, bem como os de quaisquer actos de apreensão de bens da
massa insolvente ou praticados no âmbito da administração e liquidação dessa
massa ou previstos em plano de insolvência ou de pagamentos.
Artigo 10.º
Falecimento do devedor
No caso de falecimento do devedor, o processo:
a) Passa a correr contra a herança jacente, que se manterá indivisa até ao
encerramento do mesmo;
b) É suspenso pelo prazo, não prorrogável, de cinco dias, quando um sucessor do
devedor o requeira e o juiz considere conveniente a suspensão.
Artigo 11.º
Princípio do inquisitório
No processo de insolvência, embargos e incidente de qualificação de insolvência,
a decisão do juiz pode ser fundada em factos que não tenham sido alegados pelas
partes.
Artigo 12.º
Dispensa da audiência do devedor
1 - A audiência do devedor prevista em qualquer das normas deste Código,
incluindo a citação, pode ser dispensada quando acarrete demora excessiva pelo
facto de o devedor, sendo uma pessoa singular, residir no estrangeiro, ou por
ser desconhecido o seu paradeiro.
2 - Nos casos referidos no número anterior, deve, sempre que possível, ouvir-se
um representante do devedor, ou, na falta deste, o seu cônjuge ou um seu
parente, ou pessoa que com ele viva em união de facto.
3 - O disposto nos números anteriores aplica-se, com as devidas adaptações,
relativamente aos administradores do devedor, quando este não seja uma pessoa
singular.
Artigo 13.º
Representação de entidades públicas
1 - As entidades públicas titulares de créditos podem a todo o tempo confiar a
mandatários especiais, designados nos termos legais ou estatutários, a sua
representação no processo de insolvência, em substituição do Ministério Público.
2 - A representação de entidades públicas credoras pode ser atribuída a um
mandatário comum, se tal for determinado por despacho conjunto do membro do
Governo responsável pelo sector económico a que pertença a empresa do devedor e
do membro do Governo que tutele a entidade credora.
Artigo 14.º
Recursos
1 - No processo de insolvência, e nos embargos opostos à sentença de declaração
de insolvência, não é admitido recurso dos acórdãos proferidos por tribunal da
relação, salvo se o recorrente demonstrar que o acórdão de que pretende recorrer
está em oposição com outro, proferido por alguma das relações, ou pelo Supremo
Tribunal de Justiça, no domínio da mesma legislação e que haja decidido de forma
divergente a mesma questão fundamental de direito e não houver sido fixada pelo
Supremo, nos termos dos artigos 732.º-A e 732.º-B do Código de Processo Civil,
jurisprudência com ele conforme.
2 - Em todos os recursos interpostos no processo ou em qualquer dos seus
apensos, o prazo para alegações é um para todos os recorrentes, correndo em
seguida um outro para todos os recorridos.
3 - Para consulta pelos interessados será extraída das alegações e
contra-alegações uma única cópia, que fica à disposição dos mesmos na secretaria
judicial.
4 - Durante o prazo para alegações, o processo é mantido na secretaria judicial
para exame e consulta pelos interessados.
5 - Os recursos sobem imediatamente, em separado e com efeito devolutivo.
6 - Sobem, porém, nos próprios autos:
a) Os recursos da decisão de encerramento do processo de insolvência e das que
sejam proferidas depois dessa decisão;
b) Os recursos das decisões que ponham termo à acção ou incidente processados
por apenso, sejam proferidas depois dessas decisões, suspendam a instância ou
não admitam o incidente.
Artigo 15.º
Valor da acção
Para efeitos processuais, o valor da causa é determinado sobre o valor do activo
do devedor indicado na petição, que é corrigido logo que se verifique ser
diferente o valor real.
Artigo 16.º
Procedimentos especiais
1 - O disposto no presente Código aplica-se sem prejuízo do estabelecido na
legislação especial sobre o consumidor relativamente a procedimentos de
reestruturação do passivo e no Decreto-Lei n.º 316/98, de 20 de Outubro,
relativamente ao procedimento extrajudicial de conciliação.
2 - O disposto no presente Código não prejudica o regime constante de legislação
especial relativa a contratos de garantia financeira.
Artigo 17.º
Aplicação subsidiária do Código de Processo Civil
O processo de insolvência rege-se pelo Código de Processo Civil em tudo o que
não contrarie as disposições do presente Código.
TÍTULO II
Declaração da situação de insolvência
CAPÍTULO I
Pedido de declaração de insolvência
SECÇÃO I
Legitimidade para apresentar o pedido e desistência
Artigo 18.º
Dever de apresentação à insolvência
1 - O devedor deve requerer a declaração da sua insolvência dentro dos 60 dias
seguintes à data do conhecimento da situação de insolvência, tal como descrita
no n.º 1 do artigo 3.º, ou à data em que devesse conhecê-la.
2 - Exceptuam-se do dever de apresentação à insolvência as pessoas singulares
que não sejam titulares de uma empresa na data em que incorram em situação de
insolvência.
3 - Quando o devedor seja titular de uma empresa, presume-se de forma inilidível
o conhecimento da situação de insolvência decorridos pelo menos três meses sobre
o incumprimento generalizado de obrigações de algum dos tipos referidos na
alínea g) do n.º 1 do artigo 20.º
Artigo 19.º
A quem compete o pedido
Não sendo o devedor uma pessoa singular capaz, a iniciativa da apresentação à
insolvência cabe ao órgão social incumbido da sua administração, ou, se não for
o caso, a qualquer dos seus administradores.
Artigo 20.º
Outros legitimados
1 - A declaração de insolvência de um devedor pode ser requerida por quem for
legalmente responsável pelas suas dívidas, por qualquer credor, ainda que
condicional e qualquer que seja a natureza do seu crédito, ou ainda pelo
Ministério Público, em representação das entidades cujos interesses lhe estão
legalmente confiados, verificando-se algum dos seguintes factos:
a) Suspensão generalizada do pagamento das obrigações vencidas;
b) Falta de cumprimento de uma ou mais obrigações que, pelo seu montante ou
pelas circunstâncias do incumprimento, revele a impossibilidade de o devedor
satisfazer pontualmente a generalidade das suas obrigações;
c) Fuga do titular da empresa ou dos administradores do devedor ou abandono do
local em que a empresa tem a sede ou exerce a sua principal actividade,
relacionados com a falta de solvabilidade do devedor e sem designação de
substituto idóneo;
d) Dissipação, abandono, liquidação apressada ou ruinosa de bens e constituição
fictícia de créditos;
e) Insuficiência de bens penhoráveis para pagamento do crédito do exequente
verificada em processo executivo movido contra o devedor;
f) Incumprimento de obrigações previstas em plano de insolvência ou em plano de
pagamentos, nas condições previstas na alínea a) do n.º 1 e no n.º 2 do artigo
218.º;
g) Incumprimento generalizado, nos últimos seis meses, de dívidas de algum dos
seguintes tipos:
i) Tributárias;
ii) De contribuições e quotizações para a segurança social;
iii) Dívidas emergentes de contrato de trabalho, ou da violação ou cessação
deste contrato;
iv) Rendas de qualquer tipo de locação, incluindo financeira, prestações do
preço da compra ou de empréstimo garantido pela respectiva hipoteca,
relativamente a local em que o devedor realize a sua actividade ou tenha a sua
sede ou residência;
h) Sendo o devedor uma das entidades referidas no n.º 2 do artigo 3.º, manifesta
superioridade do passivo sobre o activo segundo o último balanço aprovado, ou
atraso superior a nove meses na aprovação e depósito das contas, se a tanto
estiver legalmente obrigado.
2 - O disposto no número anterior não prejudica a possibilidade de representação
das entidades públicas nos termos do artigo 13.º
Artigo 21.º
Desistência do pedido ou da instância no processo de insolvência
Salvo nos casos de apresentação à insolvência, o requerente da declaração de
insolvência pode desistir do pedido ou da instância até ser proferida sentença,
sem prejuízo do procedimento criminal que ao caso couber.
Artigo 22.º
Dedução de pedido infundado
A dedução de pedido infundado de declaração de insolvência, ou a indevida
apresentação por parte do devedor, gera responsabilidade civil pelos prejuízos
causados ao devedor ou aos credores, mas apenas em caso de dolo.
SECÇÃO II
Requisitos da petição inicial
Artigo 23.º
Forma e conteúdo da petição
1 - A apresentação à insolvência ou o pedido de declaração desta faz-se por meio
de petição escrita, na qual são expostos os factos que integram os pressupostos
da declaração requerida e se conclui pela formulação do correspondente pedido.
2 - Na petição, o requerente:
a) Sendo o próprio devedor, indica se a situação de insolvência é actual ou
apenas iminente e, quando seja pessoa singular, se pretende a exoneração do
passivo restante, nos termos das disposições do capítulo I do título XII;
b) Identifica os administradores do devedor e os seus cinco maiores credores,
com exclusão do próprio requerente;
c) Sendo o devedor casado, identifica o respectivo cônjuge e indica o regime de
bens do casamento;
d) Junta certidão do registo civil, do registo comercial ou de outro registo
público a que o devedor esteja eventualmente sujeito.
3 - Não sendo possível ao requerente fazer as indicações e junções referidas no
número anterior, solicita que sejam prestadas pelo próprio devedor.
Artigo 24.º
Junção de documentos pelo devedor
1 - Com a petição, o devedor, quando seja o requerente, junta ainda os seguintes
documentos:
a) Relação por ordem alfabética de todos os credores, com indicação dos
respectivos domicílios, dos montantes dos seus créditos, datas de vencimento,
natureza e garantias de que beneficiem, e da eventual existência de relações
especiais, nos termos do artigo 49.º;
b) Relação e identificação de todas as acções e execuções que contra si estejam
pendentes;
c) Documento em que se explicita a actividade ou actividades a que se tenha
dedicado nos últimos três anos e os estabelecimentos de que seja titular, bem
como o que entenda serem as causas da situação em que se encontra;
d) Documento em que identifica o autor da sucessão, tratando-se de herança
jacente, os sócios, associados ou membros conhecidos da pessoa colectiva, se for
o caso, e, nas restantes hipóteses em que a insolvência não respeite a pessoa
singular, aqueles que legalmente respondam pelos créditos sobre a insolvência;
e) Relação de bens que o devedor detenha em regime de arrendamento, aluguer ou
locação financeira ou venda com reserva de propriedade, e de todos os demais
bens e direitos de que seja titular, com indicação da sua natureza, lugar em que
se encontrem, dados de identificação registral, se for o caso, valor de
aquisição e estimativa do seu valor actual;
f) Tendo o devedor contabilidade organizada, as contas anuais relativas aos três
últimos exercícios, bem como os respectivos relatórios de gestão, de
fiscalização e de auditoria, pareceres do órgão de fiscalização e documentos de
certificação legal, se forem obrigatórios ou existirem, e informação sobre as
alterações mais significativas do património ocorridas posteriormente à data a
que se reportam as últimas contas e sobre as operações que, pela sua natureza,
objecto ou dimensão extravasem da actividade corrente do devedor;
g) Tratando-se de sociedade compreendida em consolidação de contas, relatórios
consolidados de gestão, contas anuais consolidadas e demais documentos de
prestação de contas respeitantes aos três últimos exercícios, bem como os
respectivos relatórios de fiscalização e de auditoria, pareceres do órgão de
fiscalização, documentos de certificação legal e relatório das operações
intragrupo realizadas durante o mesmo período;
h) Relatórios e contas especiais e informações trimestrais e semestrais, em base
individual e consolidada, reportados a datas posteriores à do termo do último
exercício a cuja elaboração a sociedade devedora esteja obrigada nos termos do
Código dos Valores Mobiliários e dos Regulamentos da Comissão do Mercado de
Valores Mobiliários;
i) Mapa de pessoal que o devedor tenha ao serviço.
2 - O devedor deve ainda:
a) Juntar documento comprovativo dos poderes dos administradores que o
representem e cópia da acta que documente a deliberação da iniciativa do pedido
por parte do respectivo órgão social de administração, se aplicável;
b) Justificar a não apresentação ou a não conformidade de algum dos documentos
exigidos no n.º 1.
c) [Revogado.]
3 - Sem prejuízo de apresentação posterior, nos termos do disposto nos artigos
223.º e seguintes, a petição apresentada pelo devedor pode ser acompanhada de um
plano de insolvência.
Artigo 25.º
Requerimento por outro legitimado
1 - Quando o pedido não provenha do próprio devedor, o requerente da declaração
de insolvência deve justificar na petição a origem, natureza e montante do seu
crédito, ou a sua responsabilidade pelos créditos sobre a insolvência, consoante
o caso, e oferecer com ela os elementos que possua relativamente ao activo e
passivo do devedor.
2 - O requerente deve ainda oferecer todos os meios de prova de que disponha,
ficando obrigado a apresentar as testemunhas arroladas, cujo número não pode
exceder os limites previstos no artigo 789.º do Código de Processo Civil.
Artigo 26.º
Duplicados e cópias de documentos
1 - São apenas oferecidos pelo requerente ou, no caso de apresentação em suporte
digital, extraídos pela secretaria os duplicados da petição necessários para a
entrega aos cinco maiores credores conhecidos e, quando for caso disso, à
comissão de trabalhadores e ao devedor, além do destinado a arquivo do tribunal.
2 - Os documentos juntos com a petição serão acompanhados de duas cópias, uma
das quais se destina ao arquivo do tribunal, ficando a outra na secretaria
judicial para consulta dos interessados.
3 - O processo tem seguimento apesar de não ter sido feita a entrega das cópias
e dos duplicados exigidos, sendo estes extraídos oficiosamente, mediante o
respectivo pagamento e de uma multa até duas unidades de conta.
4 - São sempre extraídas oficiosamente as cópias da petição necessárias para
entrega aos administradores do devedor, se for o caso.
CAPÍTULO II
Tramitação subsequente
Artigo 27.º
Apreciação liminar
1 - No próprio dia da distribuição, ou, não sendo tal viável, até ao 3.º dia
útil subsequente, o juiz:
a) Indefere liminarmente o pedido de declaração de insolvência quando seja
manifestamente improcedente, ou ocorram, de forma evidente, excepções dilatórias
insupríveis de que deva conhecer oficiosamente;
b) Concede ao requerente, sob pena de indeferimento, o prazo máximo de cinco
dias para corrigir os vícios sanáveis da petição, designadamente quando esta
careça de requisitos legais ou não venha acompanhada dos documentos que hajam de
instrui-la, nos casos em que tal falta não seja devidamente justificada.
2 - Nos casos de apresentação à insolvência, o despacho de indeferimento liminar
que não se baseie, total ou parcialmente, na falta de junção dos documentos
exigida pela alínea a) do n.º 2 do artigo 24.º é objecto da publicidade prevista
no n.º 1 do artigo 38.º, aplicável com as necessárias adaptações, no prazo
previsto no n.º 5 do mesmo artigo.
Artigo 28.º
Declaração imediata da situação de insolvência
A apresentação à insolvência por parte do devedor implica o reconhecimento por
este da sua situação de insolvência, que é declarada até ao 3.º dia útil
seguinte ao da distribuição da petição inicial ou, existindo vícios corrigíveis,
ao do respectivo suprimento.
Artigo 29.º
Citação do devedor
1 - Sem prejuízo do disposto no n.º 3 do artigo 31.º, se a petição não tiver
sido apresentada pelo próprio devedor e não houver motivo para indeferimento
liminar, o juiz manda citar pessoalmente o devedor, no prazo referido no artigo
anterior.
2 - No acto de citação é o devedor advertido da cominação prevista no n.º 5 do
artigo seguinte e de que os documentos referidos no n.º 1 do artigo 24.º devem
estar prontos para imediata entrega ao administrador da insolvência na
eventualidade de a insolvência ser declarada.
Artigo 30.º
Oposição do devedor
1 - O devedor pode, no prazo de 10 dias, deduzir oposição, à qual é aplicável o
disposto no n.º 2 do artigo 25.º
2 - Sem prejuízo do disposto no número seguinte, o devedor junta com a oposição,
sob pena de não recebimento, lista dos seus cinco maiores credores, com exclusão
do requerente, com indicação do respectivo domicílio.
3 - A oposição do devedor à declaração de insolvência pretendida pode basear-se
na inexistência do facto em que se fundamenta o pedido formulado ou na
inexistência da situação de insolvência.
4 - Cabe ao devedor provar a sua solvência, baseando-se na escrituração
legalmente obrigatória, se for o caso, devidamente organizada e arrumada, sem
prejuízo do disposto no n.º 3 do artigo 3.º
5 - Se a audiência do devedor não tiver sido dispensada nos termos do artigo
12.º e o devedor não deduzir oposição, consideram-se confessados os factos
alegados na petição inicial, e a insolvência é declarada no dia útil seguinte ao
termo do prazo referido no n.º 1, se tais factos preencherem a hipótese de
alguma das alíneas do n.º 1 do artigo 20.º
Artigo 31.º
Medidas cautelares
1 - Havendo justificado receio da prática de actos de má gestão, o juiz,
oficiosamente ou a pedido do requerente, ordena as medidas cautelares que se
mostrem necessárias ou convenientes para impedir o agravamento da situação
patrimonial do devedor, até que seja proferida sentença.
2 - As medidas cautelares podem designadamente consistir na nomeação de um
administrador judicial provisório com poderes exclusivos para a administração do
património do devedor, ou para assistir o devedor nessa administração.
3 - A adopção das medidas cautelares pode ter lugar previamente à citação do
devedor, no caso de a antecipação ser julgada indispensável para não pôr em
perigo o seu efeito útil, mas sem que a citação possa em caso algum ser
retardada mais de 10 dias relativamente ao prazo que de outro modo interviria.
4 - A adopção das medidas cautelares precede a distribuição quando o requerente
o solicite e o juiz considere justificada a precedência.
Artigo 32.º
Escolha e remuneração do administrador judicial provisório
1 - A escolha do administrador judicial provisório recai em entidade inscrita na
lista oficial de administradores da insolvência, tendo o juiz em conta a
proposta eventualmente feita na petição inicial.
2 - O administrador judicial provisório manter-se-á em funções até que seja
proferida a sentença, sem prejuízo da possibilidade da sua substituição ou
remoção em momento anterior, ou da sua recondução como administrador da
insolvência.
3 - A remuneração do administrador judicial provisório é fixada pelo juiz, na
própria decisão de nomeação ou posteriormente, e constitui, juntamente com as
despesas em que ele incorra no exercício das suas funções, um encargo
compreendido nas custas do processo, que é suportado pelo Cofre Geral dos
Tribunais na medida em que, sendo as custas da responsabilidade da massa, não
puder ser satisfeito pelas forças desta.
Artigo 33.º
Competências do administrador judicial provisório
1 - O administrador judicial provisório a quem forem atribuídos poderes
exclusivos de administração do património do devedor deve providenciar pela
manutenção e preservação desse património, e pela continuidade da exploração da
empresa, salvo se considerar que a suspensão da actividade é mais vantajosa para
os interesses dos credores e tal medida for autorizada pelo juiz.
2 - O juiz fixa os deveres e as competências do administrador judicial
provisório encarregado apenas de assistir o devedor na administração do seu
património, devendo:
a) Especificar os actos que não podem ser praticados pelo devedor sem a
aprovação do administrador judicial provisório; ou
b) Indicar serem eles genericamente todos os que envolvam a alienação ou a
oneração de quaisquer bens ou a assunção de novas responsabilidades que não
sejam indispensáveis à gestão corrente da empresa.
3 - Em qualquer das hipóteses previstas nos números anteriores, o administrador
judicial provisório tem o direito de acesso à sede e às instalações empresariais
do devedor e de proceder a quaisquer inspecções e a exames, designadamente dos
elementos da sua contabilidade, e o devedor fica obrigado a fornecer-lhe todas
as informações necessárias ao desempenho das suas funções, aplicando-se, com as
devidas adaptações, o artigo 83.º
Artigo 34.º
Remissão
O disposto nos artigos 38.º, 58.º e 59.º e no n.º 6 do artigo 81.º aplica-se,
respectivamente e com as necessárias adaptações, à publicidade e ao registo da
nomeação do administrador judicial provisório e dos poderes que lhe forem
atribuídos, à fiscalização do exercício do cargo e responsabilidade em que possa
incorrer e ainda à eficácia dos actos jurídicos celebrados sem a sua
intervenção, quando exigível.
Artigo 35.º
Audiência de discussão e julgamento
1 - Tendo havido oposição do devedor, ou tendo a audiência deste sido
dispensada, é logo marcada audiência de discussão e julgamento para um dos cinco
dias subsequentes, notificando-se o requerente e o devedor para comparecerem
pessoalmente ou para se fazerem representar por quem tenha poderes para
transigir.
2 - Não comparecendo o devedor nem um seu representante, têm-se por confessados
os factos alegados na petição inicial, se a audiência do devedor não tiver sido
dispensada nos termos do artigo 12.º
3 - Não se verificando a situação prevista no número anterior, a não comparência
do requerente, por si ou através de um representante, vale como desistência do
pedido.
4 - O juiz dita logo para a acta, consoante o caso, sentença de declaração da
insolvência, se os factos alegados na petição inicial forem subsumíveis no n.º 1
do artigo 20.º, ou sentença homologatória da desistência do pedido.
5 - Comparecendo ambas as partes, ou só o requerente ou um seu representante,
mas tendo a audiência do devedor sido dispensada, o juiz selecciona a matéria de
facto relevante que considere assente e a que constitui a base instrutória.
6 - As reclamações apresentadas são logo decididas, seguindo-se de imediato a
produção das provas.
7 - Finda a produção da prova têm lugar alegações orais de facto e de direito, e
o tribunal decide em seguida a matéria de facto.
8 - Se a sentença não puder ser logo proferida, sê-lo-á no prazo de cinco dias.
CAPÍTULO III
Sentença de declaração de insolvência e sua impugnação
SECÇÃO I
Conteúdo, notificação e publicidade da sentença
Artigo 36.º
Sentença de declaração de insolvência
Na sentença que declarar a insolvência, o juiz:
a) Indica a data e a hora da respectiva prolação, considerando-se que ela teve
lugar ao meio-dia na falta de outra indicação;
b) Identifica o devedor insolvente, com indicação da sua sede ou residência;
c) Fixa residência aos administradores do devedor, bem como ao próprio devedor,
se este for pessoa singular;
d) Nomeia o administrador da insolvência, com indicação do seu domicílio
profissional;
e) Determina que a administração da massa insolvente será assegurada pelo
devedor, quando se verifiquem os pressupostos exigidos pelo n.º 2 do artigo
224.º;
f) Determina que o devedor entregue imediatamente ao administrador da
insolvência os documentos referidos no n.º 1 do artigo 24.º que ainda não
constem dos autos;
g) Decreta a apreensão, para imediata entrega ao administrador da insolvência,
dos elementos da contabilidade do devedor e de todos os seus bens, ainda que
arrestados, penhorados ou por qualquer forma apreendidos ou detidos e sem
prejuízo do disposto no n.º 1 do artigo 150.º;
h) Ordena a entrega ao Ministério Público, para os devidos efeitos, dos
elementos que indiciem a prática de infracção penal;
i) Declara aberto o incidente de qualificação de insolvência, com carácter pleno
ou limitado, sem prejuízo do disposto no artigo 187.º;
j) Designa prazo, até 30 dias, para a reclamação de créditos;
l) Adverte os credores de que devem comunicar prontamente ao administrador da
insolvência as garantias reais de que beneficiem;
m) Adverte os devedores do insolvente de que as prestações a que estejam
obrigados deverão ser feitas ao administrador da insolvência e não ao próprio
insolvente;
n) Designa dia e hora, entre os 45 e os 75 dias subsequentes, para a realização
da reunião da assembleia de credores aludida no artigo 156.º, neste Código
designada por assembleia de apreciação do relatório.
Artigo 37.º
Notificação da sentença e citação
1 - Os administradores do devedor a quem tenha sido fixada residência são
notificados pessoalmente da sentença, nos termos e pelas formas prescritos na
lei processual para a citação, sendo-lhes igualmente enviadas cópias da petição
inicial.
2 - A notificação do requerente da declaração de insolvência ocorre nos termos
por que se regem as notificações em processos pendentes; o devedor, se não for o
próprio requerente, é notificado nos mesmos moldes ou nos do n.º 1, consoante
tenha ou não sido já pessoalmente citado para os termos do processo.
3 - Os cinco maiores credores conhecidos, com exclusão do que tiver sido
requerente, são citados nos termos do n.º 1 ou por carta registada, consoante
tenham ou não residência habitual, sede ou domicílio em Portugal.
4 - Os credores conhecidos que tenham residência habitual, domicílio ou sede em
outros Estados membros da União Europeia são citados por carta registada, em
conformidade com os artigos 40.º e 42.º do Regulamento (CE) n.º
1346/2000, do Conselho, de 29 de Maio.
5 - Havendo créditos do Estado, de institutos públicos sem a natureza de
empresas públicas ou de instituições da segurança social, a citação dessas
entidades é feita por carta registada.
6 - Os demais credores e outros interessados são citados por edital, com as
formalidades determinadas pela incerteza das pessoas, com prazo de dilação de
cinco dias e com anúncios no Diário da República e num jornal diário de grande
circulação nacional, designando-se nuns e noutros o número do processo,
indicando-se a dilação e a possibilidade de recurso ou de dedução de embargos,
reproduzindo-se as menções constantes da sentença em obediência ao disposto nas
alíneas a) a e) e i) a n) do artigo anterior e advertindo-se que o prazo para o
recurso, os embargos e a reclamação dos créditos só começa a correr depois de
finda a dilação, e que esta se conta da publicação do último anúncio.
7 - A sentença é igualmente notificada ao Ministério Público e, se o devedor for
titular de uma empresa, à comissão de trabalhadores; quando esta comissão não
exista, a sentença é objecto de publicação mediante a afixação de editais na
sede e nos estabelecimentos da empresa.
Artigo 38.º
Publicidade e registo
1 - É ainda dada publicidade à sentença de declaração de insolvência por meio de
publicação de anúncio no Diário da República de que constem os elementos
enunciados nas alíneas a), b), d) e m) do artigo 36.º, bem como por afixação de
edital, com as mesmas informações, à porta da sede e das sucursais do insolvente
ou do local da sua actividade, consoante os casos, e ainda no lugar próprio do
tribunal; o juiz pode, oficiosamente ou a requerimento de algum interessado,
determinar as formas de publicidade adicional que considere indicadas.
2 - A declaração de insolvência e a nomeação de um administrador da insolvência
são registadas oficiosamente, com base na respectiva certidão, para o efeito
remetida pela secretaria:
a) Na conservatória do registo civil, se o devedor for uma pessoa singular;
b) Na conservatória do registo comercial, se houver quaisquer factos relativos
ao devedor insolvente sujeitos a esse registo;
c) Na entidade encarregada de outro registo público a que o devedor esteja
eventualmente sujeito.
3 - A secretaria:
a) Regista oficiosamente a declaração de insolvência e a nomeação do
administrador da insolvência no registo informático de execuções estabelecido
pelo Código de Processo Civil;
b) Promove a inclusão dessas informações, e ainda do prazo concedido para as
reclamações, na página informática do tribunal;
c) Comunica a declaração de insolvência ao Banco de Portugal para que este
proceda à sua inscrição na central de riscos de crédito.
4 - Dos registos da nomeação do administrador da insolvência deve constar o seu
domicílio profissional.
5 - Todas as diligências destinadas à publicidade e registo da sentença devem
ser realizadas no prazo de cinco dias.
Artigo 39.º
Insuficiência da massa insolvente
1 - Concluindo o juiz que o património do devedor não é presumivelmente
suficiente para a satisfação das custas do processo e das dívidas previsíveis da
massa insolvente e não estando essa satisfação por outra forma garantida, faz
menção desse facto na sentença de declaração da insolvência e dá nela
cumprimento apenas ao preceituado nas alíneas a) a d) e h) do artigo 36.º,
declarando aberto o incidente de qualificação com carácter limitado.
2 - No caso referido no número anterior:
a) Qualquer interessado pode pedir, no prazo de cinco dias, que a sentença seja
complementada com as restantes menções do artigo 36.º;
b) Aplica-se à citação, notificação, publicidade e registo da sentença o
disposto nos artigos anteriores, com as modificações exigidas, devendo em todas
as comunicações fazer-se adicionalmente referência à possibilidade conferida
pela alínea anterior.
3 - O requerente do complemento da sentença deposita à ordem do tribunal o
montante que o juiz especificar segundo o que razoavelmente entenda necessário
para garantir o pagamento das referidas custas e dívidas, ou cauciona esse
pagamento mediante garantia bancária, sendo o depósito movimentado ou a caução
accionada apenas depois de comprovada a efectiva insuficiência da massa, e na
medida dessa insuficiência.
4 - Requerido o complemento da sentença nos termos dos n.os 2 e 3, deve o juiz
dar cumprimento integral ao artigo 36.º, observando-se em seguida o disposto nos
artigos 37.º e 38.º, e prosseguindo com carácter pleno o incidente de
qualificação da insolvência.
5 - Quem requerer o complemento da sentença pode exigir o reembolso das quantias
despendidas às pessoas que, em violação dos seus deveres como administradores,
se hajam abstido de requerer a declaração de insolvência do devedor, ou o tenham
feito com demora.
6 - O direito estabelecido no número anterior prescreve ao fim de cinco anos.
7 - Não sendo requerido o complemento da sentença:
a) O devedor não fica privado dos poderes de administração e disposição do seu
património, nem se produzem quaisquer dos efeitos que normalmente correspondem à
declaração de insolvência, ao abrigo das normas deste Código;
b) O processo de insolvência é declarado findo logo que a sentença transite em
julgado, sem prejuízo da tramitação até final do incidente limitado de
qualificação da insolvência;
c) O administrador da insolvência limita a sua actividade à elaboração do
parecer a que se refere o n.º 2 do artigo 188.º;
d) Após o respectivo trânsito em julgado, qualquer legitimado pode instaurar a
todo o tempo novo processo de insolvência, mas o prosseguimento dos autos
depende de que seja depositado à ordem do tribunal o montante que o juiz
razoavelmente entenda necessário para garantir o pagamento das custas e das
dívidas previsíveis da massa insolvente, aplicando-se o disposto nos n.os 4 e 5.
8 - O disposto neste artigo não é aplicável quando o devedor, sendo uma pessoa
singular, tenha requerido, anteriormente à sentença de declaração de
insolvência, a exoneração do passivo restante.
SECÇÃO II
Impugnação da sentença
Artigo 40.º
Oposição de embargos
1 - Podem opor embargos à sentença declaratória da insolvência:
a) O devedor em situação de revelia absoluta, se não tiver sido pessoalmente
citado;
b) O cônjuge, os ascendentes ou descendentes e os afins em 1.º grau da linha
recta da pessoa singular considerada insolvente, no caso de a declaração de
insolvência se fundar na fuga do devedor relacionada com a sua falta de
liquidez;
c) O cônjuge, herdeiro, legatário ou representante do devedor, quando o
falecimento tenha ocorrido antes de findo o prazo para a oposição por embargos
que ao devedor fosse lícito deduzir, nos termos da alínea a);
d) Qualquer credor que como tal se legitime;
e) Os responsáveis legais pelas dívidas do insolvente;
f) Os sócios, associados ou membros do devedor.
2 - Os embargos devem ser deduzidos dentro dos cinco dias subsequentes à
notificação da sentença ao embargante ou ao fim da dilação aplicável, e apenas
são admissíveis desde que o embargante alegue factos ou requeira meios de prova
que não tenham sido tidos em conta pelo tribunal e que possam afastar os
fundamentos da declaração de insolvência.
3 - A oposição de embargos à sentença declaratória da insolvência, bem como o
recurso da decisão que mantenha a declaração, suspende a liquidação e a partilha
do activo, sem prejuízo do disposto no n.º 2 do artigo 158.º
Artigo 41.º
Processamento e julgamento dos embargos
1 - A petição de embargos é imediatamente autuada por apenso, sendo o processo
concluso ao juiz, para o despacho liminar, no dia seguinte ao termo do prazo
referido no n.º 2 do artigo anterior; aos embargos opostos por várias entidades
corresponde um único processo.
2 - Não havendo motivo para indeferimento liminar, é ordenada a notificação do
administrador da insolvência e da parte contrária para contestarem, querendo, no
prazo de cinco dias.
3 - Aplica-se à petição e às contestações o disposto no n.º 2 do artigo 25.º
4 - Após a contestação e depois de produzidas, no prazo máximo de 10 dias, as
provas que se devam realizar antecipadamente, procede-se à audiência de
julgamento, dentro dos cinco dias imediatos, nos termos do disposto no n.º 1 do
presente artigo e nos n.os 5 a 8 do artigo 35.º
Artigo 42.º
Recurso
1 - É lícito às pessoas referidas no n.º 1 do artigo 40.º, alternativamente à
dedução dos embargos ou cumulativamente com estes, interpor recurso da sentença
de declaração de insolvência, quando entendam que, face aos elementos apurados,
ela não devia ter sido proferida.
2 - Ao devedor é facultada a interposição de recurso mesmo quando a oposição de
embargos lhe esteja vedada.
3 - É aplicável à interposição do recurso o disposto no n.º 3 do artigo 40.º,
com as necessárias adaptações.
Artigo 43.º
Efeitos da revogação
A revogação da sentença de declaração de insolvência não afecta os efeitos dos
actos legalmente praticados pelos órgãos da insolvência.
CAPÍTULO IV
Sentença de indeferimento do pedido de declaração de insolvência
Artigo 44.º
Notificação da sentença de indeferimento do pedido
1 - A sentença que indefira o pedido de declaração de insolvência é notificada
apenas ao requerente e ao devedor.
2 - No caso de ter sido designado um administrador judicial provisório, a
sentença é objecto de publicação e registo, nos termos previstos no artigo 38.º,
devidamente adaptados.
Artigo 45.º
Recurso da sentença de indeferimento
Contra a sentença que indefira o pedido de declaração de insolvência só pode
reagir o próprio requerente, e unicamente através de recurso.
TÍTULO III
Massa insolvente e intervenientes no processo
CAPÍTULO I
Massa insolvente e classificações dos créditos
Artigo 46.º
Conceito de massa insolvente
1 - A massa insolvente destina-se à satisfação dos credores da insolvência,
depois de pagas as suas próprias dívidas, e, salvo disposição em contrário,
abrange todo o património do devedor à data da declaração de insolvência, bem
como os bens e direitos que ele adquira na pendência do processo.
2 - Os bens isentos de penhora só são integrados na massa insolvente se o
devedor voluntariamente os apresentar e a impenhorabilidade não for absoluta.
Artigo 47.º
Conceito de credores da insolvência e classes de créditos sobre a insolvência
1 - Declarada a insolvência, todos os titulares de créditos de natureza
patrimonial sobre o insolvente, ou garantidos por bens integrantes da massa
insolvente, cujo fundamento seja anterior à data dessa declaração, são
considerados credores da insolvência, qualquer que seja a sua nacionalidade e
domicílio.
2 - Os créditos referidos no número anterior, bem como os que lhes sejam
equiparados, e as dívidas que lhes correspondem, são neste Código denominados,
respectivamente, créditos sobre a insolvência e dívidas da insolvência.
3 - São equiparados aos titulares de créditos sobre a insolvência à data da
declaração da insolvência aqueles que mostrem tê-los adquirido no decorrer do
processo.
4 - Para efeitos deste Código, os créditos sobre a insolvência são:
a) «Garantidos» e «privilegiados» os créditos que beneficiem, respectivamente,
de garantias reais, incluindo os privilégios creditórios especiais, e de
privilégios creditórios gerais sobre bens integrantes da massa insolvente, até
ao montante correspondente ao valor dos bens objecto das garantias ou dos
privilégios gerais, tendo em conta as eventuais onerações prevalecentes;
b) «Subordinados» os créditos enumerados no artigo seguinte, excepto quando
beneficiem de privilégios creditórios, gerais ou especiais, ou de hipotecas
legais, que não se extingam por efeito da declaração de insolvência;
c) «Comuns» os demais créditos.
Artigo 48.º
Créditos subordinados
Consideram-se subordinados, sendo graduados depois dos restantes créditos sobre
a insolvência:
a) Os créditos detidos por pessoas especialmente relacionadas com o devedor,
desde que a relação especial existisse já aquando da respectiva aquisição, e por
aqueles a quem eles tenham sido transmitidos nos dois anos anteriores ao início
do processo de insolvência;
b) Os juros de créditos não subordinados constituídos após a declaração da
insolvência, com excepção dos abrangidos por garantia real e por privilégios
creditórios gerais, até ao valor dos bens respectivos;
c) Os créditos cuja subordinação tenha sido convencionada pelas partes;
d) Os créditos que tenham por objecto prestações do devedor a título gratuito;
e) Os créditos sobre a insolvência que, como consequência da resolução em
benefício da massa insolvente, resultem para o terceiro de má fé;
f) Os juros de créditos subordinados constituídos após a declaração da
insolvência;
g) Os créditos por suprimentos.
Artigo 49.º
Pessoas especialmente relacionadas com o devedor
1 - São havidos como especialmente relacionados com o devedor pessoa singular:
a) O seu cônjuge e as pessoas de quem se tenha divorciado nos dois anos
anteriores ao início do processo de insolvência;
b) Os ascendentes, descendentes ou irmãos do devedor ou de qualquer das pessoas
referidas na alínea anterior;
c) Os cônjuges dos ascendentes, descendentes ou irmãos do devedor;
d) As pessoas que tenham vivido habitualmente com o devedor em economia comum em
período situado dentro dos dois anos anteriores ao início do processo de
insolvência.
2 - São havidos como especialmente relacionados com o devedor pessoa colectiva:
a) Os sócios, associados ou membros que respondam legalmente pelas suas dívidas,
e as pessoas que tenham tido esse estatuto nos dois anos anteriores ao início do
processo de insolvência;
b) As pessoas que, se for o caso, tenham estado com a sociedade insolvente em
relação de domínio ou de grupo, nos termos do artigo 21.º do Código de Valores
Mobiliários, em período situado dentro dos dois anos anteriores ao início do
processo de insolvência;
c) Os administradores, de direito ou de facto, do devedor e aqueles que o tenham
sido em algum momento nos dois anos anteriores ao início do processo de
insolvência;
d) As pessoas relacionadas com alguma das mencionadas nas alíneas anteriores por
qualquer das formas referidas no n.º 1.
3 - Nos casos em que a insolvência respeite apenas a um património autónomo são
consideradas pessoas especialmente relacionadas os respectivos titulares e
administradores, bem como as que estejam ligadas a estes por alguma das formas
previstas nos números anteriores, e ainda, tratando-se de herança jacente, as
ligadas ao autor da sucessão por alguma das formas previstas no n.º 1, na data
da abertura da sucessão ou nos dois anos anteriores.
Artigo 50.º
Créditos sob condição
1 - Para efeitos deste Código consideram-se créditos sob condição suspensiva e
resolutiva, respectivamente, aqueles cuja constituição ou subsistência se
encontrem sujeitos à verificação ou à não verificação de um acontecimento futuro
e incerto tanto por força da lei como de negócio jurídico.
2 - São havidos, designadamente, como créditos sob condição suspensiva:
a) Os resultantes da recusa de execução ou denúncia antecipada, por parte do
administrador da insolvência, de contratos bilaterais em curso à data da
declaração da insolvência, ou da resolução de actos em benefício da massa
insolvente, enquanto não se verificar essa denúncia, recusa ou resolução;
b) Os créditos que não possam ser exercidos contra o insolvente sem prévia
excussão do património de outrem, enquanto não se verificar tal excussão;
c) Os créditos sobre a insolvência pelos quais o insolvente não responda
pessoalmente, enquanto a dívida não for exigível.
Artigo 51.º
Dívidas da massa insolvente
1 - Salvo preceito expresso em contrário, são dívidas da massa insolvente, além
de outras como tal qualificadas neste Código:
a) As custas do processo de insolvência;
b) As remunerações do administrador da insolvência e as despesas deste e dos
membros da comissão de credores;
c) As dívidas emergentes dos actos de administração, liquidação e partilha da
massa insolvente;
d) As dívidas resultantes da actuação do administrador da insolvência no
exercício das suas funções;
e) Qualquer dívida resultante de contrato bilateral cujo cumprimento não possa
ser recusado pelo administrador da insolvência, salvo na medida em que se
reporte a período anterior à declaração de insolvência;
f) Qualquer dívida resultante de contrato bilateral cujo cumprimento não seja
recusado pelo administrador da insolvência, salvo na medida correspondente à
contraprestação já realizada pela outra parte anteriormente à declaração de
insolvência ou em que se reporte a período anterior a essa declaração;
g) Qualquer dívida resultante de contrato que tenha por objecto uma prestação
duradoura, na medida correspondente à contraprestação já realizada pela outra
parte e cujo cumprimento tenha sido exigido pelo administrador judicial
provisório;
h) As dívidas constituídas por actos praticados pelo administrador judicial
provisório no exercício dos seus poderes;
i) As dívidas que tenham por fonte o enriquecimento sem causa da massa
insolvente;
j) A obrigação de prestar alimentos relativa a período posterior à data da
declaração de insolvência, nas condições do artigo 93.º
2 - Os créditos correspondentes a dívidas da massa involvente e os titulares
desses créditos são neste Código designados, respectivamente, por créditos sobre
a massa e credores da massa.
CAPÍTULO II
Órgãos da insolvência
SECÇÃO I
Administrador da insolvência
Artigo 52.º
Nomeação pelo juiz e estatuto
1 - A nomeação do administrador da insolvência é da competência do juiz.
2 - Aplica-se à nomeação do administrador da insolvência o disposto no n.º 1 do
artigo 32.º, devendo o juiz atender igualmente às indicações que sejam feitas
pelo próprio devedor ou pela comissão de credores, se existir, e cabendo a
preferência, na primeira designação, ao administrador judicial provisório em
exercício de funções à data da declaração da insolvência.
3 - O processo de recrutamento para as listas oficiais, bem como o estatuto do
administrador da insolvência, constam de diploma legal próprio, sem prejuízo do
disposto neste Código.
Artigo 53.º
Escolha de outro administrador pelos credores
1 - Sob condição de que previamente à votação se junte aos autos a aceitação do
proposto, os credores podem, na primeira assembleia realizada após a designação
do administrador da insolvência, eleger para exercer o cargo outra pessoa,
inscrita ou não na lista oficial, e prover sobre a remuneração respectiva, por
deliberação que obtenha a aprovação da maioria dos votantes e dos votos
emitidos, não sendo consideradas as abstenções.
2 - A eleição de pessoa não inscrita na lista oficial apenas pode ocorrer em
casos devidamente justificados pela especial dimensão da empresa compreendida na
massa insolvente, pela especificidade do ramo de actividade da mesma ou pela
complexidade do processo.
3 - O juiz só pode deixar de nomear como administrador da insolvência a pessoa
eleita pelos credores, em substituição do administrador em funções, se
considerar que a mesma não tem idoneidade ou aptidão para o exercício do cargo,
que é manifestamente excessiva a retribuição aprovada pelos credores ou, quando
se trate de pessoa não inscrita na lista oficial, que não se verifica nenhuma
das circunstâncias previstas no número anterior.
Artigo 54.º
Início de funções
O administrador da insolvência, uma vez notificado da nomeação, assume
imediatamente a sua função.
Artigo 55.º
Funções e seu exercício
1 - Além das demais tarefas que lhe são cometidas, cabe ao administrador da
insolvência, com a cooperação e sob a fiscalização da comissão de credores, se
existir:
a) Preparar o pagamento das dívidas do insolvente à custa das quantias em
dinheiro existentes na massa insolvente, designadamente das que constituem
produto da alienação, que lhe incumbe promover, dos bens que a integram;
b) Prover, no entretanto, à conservação e frutificação dos direitos do
insolvente e à continuação da exploração da empresa, se for o caso, evitando
quanto possível o agravamento da sua situação económica.
2 - O administrador da insolvência exerce pessoalmente as competências do seu
cargo, não podendo substabelecê-las em ninguém, sem prejuízo dos casos de
recurso obrigatório ao patrocínio judiciário ou de necessidade de prévia
concordância da comissão de credores.
3 - O administrador da insolvência, no exercício das respectivas funções, pode
ser coadjuvado sob a sua responsabilidade por técnicos ou outros auxiliares,
remunerados ou não, incluindo o próprio devedor, mediante prévia concordância da
comissão de credores ou do juiz, na falta dessa comissão.
4 - O administrador da insolvência pode contratar a termo certo ou incerto os
trabalhadores necessários à liquidação da massa insolvente ou à continuação da
exploração da empresa, mas os novos contratos caducam no momento do encerramento
definitivo do estabelecimento onde os trabalhadores prestam serviço, ou, salvo
convenção em contrário, no da sua transmissão.
5 - Ao administrador da insolvência compete ainda prestar oportunamente à
comissão de credores e ao tribunal todas as informações necessárias sobre a
administração e a liquidação da massa insolvente.
6 - A requerimento do administrador da insolvência, o juiz oficia quaisquer
entidades públicas e instituições de crédito para, com base nos respectivos
registos, prestarem informações consideradas necessárias ou úteis para os fins
do processo, nomeadamente sobre a existência de bens integrantes da massa
insolvente.
Artigo 56.º
Destituição
1 - O juiz pode, a todo o tempo, destituir o administrador da insolvência e
substitui-lo por outro, se, ouvidos a comissão de credores, quando exista, o
devedor e o próprio administrador da insolvência, fundadamente considerar
existir justa causa.
2 - Salvo o disposto no n.º 3 do artigo 53.º, deverá ser designada como
substituto a pessoa que para o efeito tenha sido eventualmente indicada pela
assembleia de credores, mediante deliberação aprovada nos termos do n.º 1 do
mesmo artigo.
Artigo 57.º
Registo e publicidade
A cessação de funções do administrador da insolvência e a nomeação de outra
pessoa para o desempenho do cargo são objecto dos registos e da publicidade
previstos no artigo 38.º
Artigo 58.º
Fiscalização pelo juiz
O administrador da insolvência exerce a sua actividade sob a fiscalização do
juiz, que pode, a todo o tempo, exigir-lhe informações sobre quaisquer assuntos
ou a apresentação de um relatório da actividade desenvolvida e do estado da
administração e da liquidação.
Artigo 59.º
Responsabilidade
1 - O administrador da insolvência responde pelos danos causados ao devedor e
aos credores da insolvência e da massa insolvente pela inobservância culposa dos
deveres que lhe incumbem; a culpa é apreciada pela diligência de um
administrador da insolvência criterioso e ordenado.
2 - O administrador da insolvência responde igualmente pelos danos causados aos
credores da massa insolvente se esta for insuficiente para satisfazer
integralmente os respectivos direitos e estes resultarem de acto do
administrador, salvo o caso de imprevisibilidade da insuficiência da massa,
tendo em conta as circunstâncias conhecidas do administrador e aquelas que ele
não devia ignorar.
3 - O administrador da insolvência responde solidariamente com os seus
auxiliares pelos danos causados pelos actos e omissões destes, salvo se provar
que não houve culpa da sua parte ou que, mesmo com a diligência devida, se não
teriam evitado os danos.
4 - A responsabilidade do administrador da insolvência prescreve no prazo de
dois anos a contar da data em que o lesado teve conhecimento do direito que lhe
compete, mas nunca depois de decorrido igual período sobre a data da cessação de
funções.
Artigo 60.º
Remuneração
1 - O administrador da insolvência nomeado pelo juiz tem direito à remuneração
prevista no seu estatuto e ao reembolso das despesas que razoavelmente tenha
considerado úteis ou indispensáveis.
2 - Quando eleito pela assembleia de credores, a remuneração do administrador da
insolvência é a que for prevista na deliberação respectiva.
3 - O administrador da insolvência que não tenha dado previamente o seu acordo à
remuneração fixada pela assembleia de credores pela actividade de elaboração de
um plano de insolvência, de gestão da empresa após a assembleia de apreciação do
relatório ou de fiscalização do plano de insolvência aprovado pode renunciar ao
exercício do cargo, desde que o faça na própria assembleia em que a deliberação
seja tomada.
Artigo 61.º
Informação trimestral e arquivo de documentos
1 - No termo de cada período de três meses após a data da assembleia de
apreciação do relatório, deve o administrador da insolvência apresentar um
documento com informação sucinta sobre o estado da administração e liquidação,
visado pela comissão de credores, se existir, e destinado a ser junto ao
processo.
2 - O administrador da insolvência promove o arquivamento de todos os elementos
relativos a cada diligência da liquidação, indicando nos autos o local onde os
respectivos documentos se encontram.
Artigo 62.º
Apresentação de contas pelo administrador da insolvência
1 - O administrador da insolvência apresenta contas dentro dos 10 dias
subsequentes à cessação das suas funções, qualquer que seja a razão que a tenha
determinado, podendo o prazo ser prorrogado por despacho judicial.
2 - O administrador da insolvência é ainda obrigado a prestar contas em qualquer
altura do processo, sempre que o juiz o determine, quer por sua iniciativa, quer
a pedido da comissão ou da assembleia de credores, fixando o juiz o prazo para a
apresentação das contas, que não pode ser inferior a 15 dias.
3 - As contas são elaboradas em forma de conta corrente, com um resumo de toda a
receita e despesa destinado a retratar sucintamente a situação da massa
insolvente, e devem ser acompanhadas de todos os documentos comprovativos,
devidamente numerados, indicando-se nas diferentes verbas os números dos
documentos que lhes correspondem.
Artigo 63.º
Prestação de contas por terceiro
Se o administrador da insolvência não prestar contas a que esteja obrigado no
prazo aplicável, cabe ao juiz ordenar as diligências que tiver por convenientes,
podendo encarregar pessoa idónea da apresentação das contas, para, depois de
ouvida a comissão de credores, decidir segundo critérios de equidade, sem
prejuízo da responsabilização civil e do procedimento criminal que caibam contra
o administrador da insolvência.
Artigo 64.º
Julgamento das contas
1 - Autuadas por apenso as contas apresentadas pelo administrador da
insolvência, cumpre à comissão de credores, caso exista, emitir parecer sobre
elas, no prazo que o juiz fixar para o efeito, após o que os credores e o
devedor insolvente são notificados por éditos de 10 dias afixados à porta do
tribunal e por anúncio publicado no Diário da República para, no prazo de 5
dias, se pronunciarem.
2 - Para o mesmo fim tem o Ministério Público vista do processo, que é depois
concluso ao juiz para decisão, com produção da prova que se torne necessária.
Artigo 65.º
Contas anuais do devedor
O disposto nos artigos anteriores não prejudica o dever de elaborar e depositar
contas anuais, nos termos que forem legalmente obrigatórios para o devedor.
SECÇÃO II
Comissão de credores
Artigo 66.º
Nomeação da comissão de credores pelo juiz
1 - Anteriormente à primeira assembleia de credores, designadamente na própria
sentença de declaração da insolvência, o juiz nomeia uma comissão de credores
composta por três ou cinco membros e dois suplentes, devendo o encargo da
presidência recair de preferência sobre o maior credor da empresa e a escolha
dos restantes assegurar a adequada representação das várias classes de credores,
com excepção dos credores subordinados.
2 - O juiz pode não proceder à nomeação prevista no número anterior quando o
considere justificado, em atenção à exígua dimensão da massa insolvente, à
simplicidade da liquidação ou ao reduzido número de credores da insolvência.
3 - Para efeitos do disposto no n.º 1, um dos membros da comissão representa os
trabalhadores que detenham créditos sobre a empresa, devendo a sua escolha
conformar-se com a designação feita pelos próprios trabalhadores ou pela
comissão de trabalhadores, quando esta exista.
4 - Os membros da comissão de credores podem ser pessoas singulares ou
colectivas; quando a escolha recaia em pessoa colectiva, compete a esta designar
o seu representante, mediante procuração ou credencial subscrita por quem a
obriga.
5 - O Estado e as instituições de segurança social só podem ser nomeados para a
presidência da comissão de credores desde que se encontre nos autos despacho, do
membro do Governo com supervisão sobre as entidades em causa, a autorizar o
exercício da função e a indicar o representante.
Artigo 67.º
Intervenção da assembleia de credores
1 - A assembleia de credores pode prescindir da existência da comissão de
credores, substituir quaisquer dos membros ou suplentes da comissão nomeada pelo
juiz, eleger dois membros adicionais, e, se o juiz não a tiver constituído,
criar ela mesma uma comissão, composta por três, cinco ou sete membros e dois
suplentes, designar o presidente e alterar, a todo o momento, a respectiva
composição, independentemente da existência de justa causa.
2 - Os membros da comissão de credores eleitos pela assembleia não têm de ser
credores, e, na sua escolha, tal como na designação do presidente, a assembleia
não está vinculada à observância dos critérios previstos no n.º 1 do artigo
anterior, devendo apenas respeitar o critério imposto pelo n.º 3 do mesmo
artigo.
3 - As deliberações da assembleia de credores mencionadas no n.º 1 devem ser
tomadas pela maioria exigida no n.º 1 do artigo 53.º, excepto tratando-se da
destituição de membro por justa causa.
Artigo 68.º
Funções e poderes da comissão de credores
1 - À comissão compete, para além de outras tarefas que lhe sejam especialmente
cometidas, fiscalizar a actividade do administrador da insolvência e prestar-lhe
colaboração.
2 - No exercício das suas funções, pode a comissão examinar livremente os
elementos da contabilidade do devedor e solicitar ao administrador da
insolvência as informações e a apresentação dos elementos que considere
necessários.
Artigo 69.º
Deliberações da comissão de credores
1 - A comissão de credores reúne sempre que for convocada pelo presidente ou por
outros dois membros.
2 - A comissão não pode deliberar sem a presença da maioria dos seus membros,
sendo as deliberações tomadas por maioria de votos dos membros presentes, e
cabendo ao presidente, em caso de empate, voto de qualidade.
3 - Nas deliberações é admitido o voto escrito se, previamente, todos os membros
tiverem acordado nesta forma de deliberação.
4 - As deliberações da comissão de credores são comunicadas ao juiz pelo
respectivo presidente.
5 - Das deliberações da comissão de credores não cabe reclamação para o
tribunal.
Artigo 70.º
Responsabilidade dos membros da comissão
Os membros da comissão respondem perante os credores da insolvência pelos
prejuízos decorrentes da inobservância culposa dos seus deveres, sendo aplicável
o disposto n.º 4 do artigo 59.º
Artigo 71.º
Reembolso de despesas
Os membros da comissão de credores não são remunerados, tendo apenas direito ao
reembolso das despesas estritamente necessárias ao desempenho das suas funções.
SECÇÃO III
Assembleia de credores
Artigo 72.º
Participação na assembleia de credores
1 - Têm o direito de participar na assembleia de credores todos os credores da
insolvência, bem como os titulares dos direitos referidos no n.º 2 do artigo
95.º que, nos termos dessa disposição, não possam ser exercidos no processo.
2 - Ao direito de participação na assembleia dos titulares de créditos
subordinados é aplicável, com as necessárias adaptações, o disposto nos n.os 1 e
4 do artigo seguinte.
3 - Os credores podem fazer-se representar por mandatário com poderes especiais
para o efeito.
4 - Sendo necessário ao conveniente andamento dos trabalhos, pode o juiz limitar
a participação na assembleia aos titulares de créditos que atinjam determinado
montante, o qual não pode ser fixado em mais de (euro) 10000, podendo os
credores afectados fazer-se representar por outro cujo crédito seja pelo menos
igual ao limite fixado, ou agrupar-se de forma a completar o montante exigido,
participando através de um representante comum.
5 - O administrador da insolvência, os membros da comissão de credores e o
devedor e os seus administradores têm o direito e o dever de participar.
6 - É ainda facultada a participação na assembleia, até três representantes, da
comissão de trabalhadores ou, na falta desta, de até três representantes de
trabalhadores por estes designados, bem como do Ministério Público.
Artigo 73.º
Direitos de voto
1 - Os créditos conferem um voto por cada euro ou fracção se já estiverem
reconhecidos por decisão definitiva proferida no apenso de verificação e
graduação de créditos ou em acção de verificação ulterior, ou se,
cumulativamente:
a) O credor já os tiver reclamado no processo, ou, se não estiver já esgotado o
prazo fixado na sentença para as reclamações de créditos, os reclamar na própria
assembleia, para efeito apenas da participação na reunião;
b) Não forem objecto de impugnação na assembleia por parte do administrador da
insolvência ou de algum credor com direito de voto.
2 - O número de votos conferidos por crédito sob condição suspensiva é sempre
fixado pelo juiz, em atenção à probabilidade da verificação da condição.
3 - Os créditos subordinados não conferem direito de voto, excepto quando a
deliberação da assembleia de credores incida sobre a aprovação de um plano de
insolvência.
4 - A pedido do interessado pode o juiz conferir votos a créditos impugnados,
fixando a quantidade respectiva, com ponderação de todas as circunstâncias
relevantes, nomeadamente da probabilidade da existência, do montante e da
natureza subordinada do crédito, e ainda, tratando-se de créditos sob condição
suspensiva, da probabilidade da verificação da condição.
5 - Da decisão do juiz prevista no número anterior não cabe recurso.
6 - Não é em caso algum motivo de invalidade das deliberações tomadas pela
assembleia a comprovação ulterior de que aos credores competia efectivamente um
número de votos diferente do que lhes foi conferido.
7 - Sem prejuízo do que, quanto ao mais, se dispõe nos números anteriores, os
créditos com garantias reais pelos quais o devedor não responda pessoalmente
conferem um voto por cada euro do seu montante, ou do valor do bem dado em
garantia, se este for inferior.
Artigo 74.º
Presidência
A assembleia de credores é presidida pelo juiz.
Artigo 75.º
Convocação da assembleia de credores
1 - A assembleia de credores é convocada pelo juiz, por iniciativa própria ou a
pedido do administrador da insolvência, da comissão de credores, ou de um credor
ou grupo de credores cujos créditos representem, na estimativa do juiz, pelo
menos um quinto do total dos créditos não subordinados.
2 - A data, hora, local e ordem do dia da assembleia de credores são
imediatamente comunicados, com a antecedência mínima de 10 dias, por anúncio
publicado no Diário da República, num jornal diário de grande circulação
nacional e por editais afixados na porta da sede e dos estabelecimentos da
empresa, se for o caso.
3 - Os cinco maiores credores, bem como o devedor, os seus administradores e a
comissão de trabalhadores, são também avisados do dia, hora e local da reunião,
por circulares expedidas sob registo, com a mesma antecedência.
4 - O anúncio, os editais e as circulares previstos no número anterior devem
ainda conter:
a) A identificação do processo;
b) O nome e a sede ou residência do devedor, se for conhecida;
c) A advertência aos titulares de créditos que os não tenham reclamado da
necessidade de o fazerem, se ainda estiver em curso o prazo fixado na sentença
para as reclamações de créditos, informando-os de que a reclamação para mero
efeito da participação na reunião pode ser feita na própria assembleia, se
também na data desta tal prazo não estiver já esgotado;
d) Indicação dos eventuais limites à participação estabelecidos nos termos do
n.º 4 do artigo 72.º, com informação da possibilidade de agrupamento ou de
representação.
Artigo 76.º
Suspensão da assembleia
O juiz pode, por uma única vez, decidir a suspensão dos trabalhos da assembleia
e determinar que eles sejam retomados num dos cinco dias úteis seguintes.
Artigo 77.º
Maioria
A não ser nos casos em que este Código exija para o efeito maioria superior ou
outros requisitos, as deliberações da assembleia de credores são tomadas pela
maioria dos votos emitidos, não se considerando como tal as abstenções, seja
qual for o número de credores presentes ou representados, ou a percentagem dos
créditos de que sejam titulares.
Artigo 78.º
Reclamação para o juiz e recurso
1 - Das deliberações da assembleia que forem contrárias ao interesse comum dos
credores pode o administrador da insolvência ou qualquer credor com direito de
voto reclamar para o juiz, oralmente ou por escrito, desde que o faça na própria
assembleia.
2 - Da decisão que dê provimento à reclamação pode interpor recurso qualquer dos
credores que tenha votado no sentido que fez vencimento, e da decisão de
indeferimento apenas o reclamante.
Artigo 79.º
Informação
O administrador da insolvência presta à assembleia, a solicitação desta,
informação sobre quaisquer assuntos compreendidos no âmbito das suas funções.
Artigo 80.º
Prevalência da assembleia de credores
Todas as deliberações da comissão de credores são passíveis de revogação pela
assembleia e a existência de uma deliberação favorável da assembleia autoriza
por si só a prática de qualquer acto para o qual neste Código se requeira a
aprovação da comissão de credores.
TÍTULO IV
Efeitos da declaração de insolvência
CAPÍTULO I
Efeitos sobre o devedor e outras pessoas
Artigo 81.º
Transferência dos poderes de administração e disposição
1 - Sem prejuízo do disposto no título X, a declaração de insolvência priva
imediatamente o insolvente, por si ou pelos seus administradores, dos poderes de
administração e de disposição dos bens integrantes da massa insolvente, os quais
passam a competir ao administrador da insolvência.
2 - Ao devedor fica interdita a cessão de rendimentos ou a alienação de bens
futuros susceptíveis de penhora, qualquer que seja a sua natureza, mesmo
tratando-se de rendimentos que obtenha ou de bens que adquira posteriormente ao
encerramento do processo.
3 - Não são aplicáveis ao administrador da insolvência limitações ao poder de
disposição do devedor estabelecidas por decisão judicial ou administrativa, ou
impostas por lei apenas em favor de pessoas determinadas.
4 - O administrador da insolvência assume a representação do devedor para todos
os efeitos de carácter patrimonial que interessem à insolvência.
5 - A representação não se estende à intervenção do devedor no âmbito do próprio
processo de insolvência, seus incidentes e apensos, salvo expressa disposição em
contrário.
6 - São ineficazes os actos realizados pelo insolvente em contravenção do
disposto nos números anteriores, respondendo a massa insolvente pela restituição
do que lhe tiver sido prestado apenas segundo as regras do enriquecimento sem
causa, salvo se esses actos, cumulativamente:
a) Forem celebrados a título oneroso com terceiros de boa fé anteriormente ao
registo da sentença da declaração de insolvência efectuado nos termos do n.º 2
do artigo 38.º;
b) Não forem de algum dos tipos referidos no n.º 1 do artigo 121.º
7 - Os pagamentos de dívidas à massa efectuados ao insolvente após a declaração
de insolvência só serão liberatórios se forem efectuados de boa fé em data
anterior à do registo da sentença, ou se se demonstrar que o respectivo montante
deu efectiva entrada na massa insolvente.
8 - Aos actos praticados pelo insolvente após a declaração de insolvência que
não contrariem o disposto no n.º 1 é aplicável o regime seguinte:
a) Pelas dívidas do insolvente respondem apenas os seus bens não integrantes da
massa insolvente;
b) A prestação feita ao insolvente extingue a obrigação da contraparte;
c) A contraparte pode opor à massa todos os meios de defesa que lhe seja lícito
invocar contra o insolvente.
Artigo 82.º
Efeitos sobre os administradores e outras pessoas
1 - Os órgãos sociais do devedor mantêm-se em funcionamento após a declaração de
insolvência, mas os seus titulares não serão remunerados, salvo no caso previsto
no artigo 227.º, podendo renunciar aos cargos com efeitos imediatos.
2 - Durante a pendência do processo de insolvência, o administrador da
insolvência tem exclusiva legitimidade para propor e fazer seguir:
a) As acções de responsabilidade que legalmente couberem, em favor do próprio
devedor, contra os fundadores, administradores de direito e de facto, membros do
órgão de fiscalização do devedor e sócios, associados ou membros,
independentemente do acordo do devedor ou dos seus órgãos sociais, sócios,
associados ou membros;
b) As acções destinadas à indemnização dos prejuízos causados à generalidade dos
credores da insolvência pela diminuição do património integrante da massa
insolvente, tanto anteriormente como posteriormente à declaração de insolvência;
c) As acções contra os responsáveis legais pelas dívidas do insolvente.
3 - Compete unicamente ao administrador da insolvência a exigência aos sócios,
associados ou membros do devedor, logo que a tenha por conveniente, das entradas
de capital diferidas e das prestações acessórias em dívida, independentemente
dos prazos de vencimento que hajam sido estipulados, intentando para o efeito as
acções que se revelem necessárias.
4 - Toda a acção dirigida contra o administrador da insolvência com a finalidade
prevista na alínea b) do n.º 2 apenas pode ser intentada por administrador que
lhe suceda.
5 - As acções referidas nos n.os 2 a 4 correm por apenso ao processo de
insolvência.
Artigo 83.º
Dever de apresentação e de colaboração
1 - O devedor insolvente fica obrigado a:
a) Fornecer todas as informações relevantes para o processo que lhe sejam
solicitadas pelo administrador da insolvência, pela assembleia de credores, pela
comissão de credores ou pelo tribunal;
b) Apresentar-se pessoalmente no tribunal, sempre que a apresentação seja
determinada pelo juiz ou pelo administrador da insolvência, salva a ocorrência
de legítimo impedimento ou expressa permissão de se fazer representar por
mandatário;
c) Prestar a colaboração que lhe seja requerida pelo administrador da
insolvência para efeitos do desempenho das suas funções.
2 - O juiz ordena que o devedor que sem justificação tenha faltado compareça sob
custódia, sem prejuízo da multa aplicável.
3 - A recusa de prestação de informações ou de colaboração é livremente
apreciada pelo juiz, nomeadamente para efeito da qualificação da insolvência
como culposa.
4 - O disposto nos números anteriores é aplicável aos administradores do devedor
e membros do seu órgão de fiscalização, se for o caso, bem como às pessoas que
tenham desempenhado esses cargos dentro dos dois anos anteriores ao início do
processo de insolvência.
5 - O disposto nas alíneas a) e b) do n.º 1 e no n.º 2 é também aplicável aos
empregados e prestadores de serviços do devedor, bem como às pessoas que o
tenham sido dentro dos dois anos anteriores ao início do processo de
insolvência.
Artigo 84.º
Alimentos ao insolvente e aos trabalhadores
1 - Se o devedor carecer absolutamente de meios de subsistência e os não puder
angariar pelo seu trabalho, pode o administrador da insolvência, com o acordo da
comissão de credores, ou da assembleia de credores, se aquela não existir,
arbitrar-lhe um subsídio à custa dos rendimentos da massa insolvente, a título
de alimentos.
2 - Havendo justo motivo, pode a atribuição de alimentos cessar em qualquer
estado do processo, por decisão do administrador da insolvência.
3 - O disposto nos números anteriores é aplicável a quem, encontrando-se na
situação prevista no n.º 1, seja titular de créditos sobre a insolvência
emergentes de contrato de trabalho, ou da violação ou cessação deste contrato,
até ao limite do respectivo montante, mas, a final, deduzir-se-ão os subsídios
ao valor desses créditos.
CAPÍTULO II
Efeitos processuais
Artigo 85.º
Efeitos sobre as acções pendentes
1 - Declarada a insolvência, todas as acções em que se apreciem questões
relativas a bens compreendidos na massa insolvente, intentadas contra o devedor,
ou mesmo contra terceiros, mas cujo resultado possa influenciar o valor da
massa, e todas as acções de natureza exclusivamente patrimonial intentadas pelo
devedor são apensadas ao processo de insolvência, desde que a apensação seja
requerida pelo administrador da insolvência, com fundamento na conveniência para
os fins do processo.
2 - O juiz requisita ao tribunal ou entidade competente a remessa, para efeitos
de apensação aos autos da insolvência, de todos os processos nos quais se tenha
efectuado qualquer acto de apreensão ou detenção de bens compreendidos na massa
insolvente.
3 - O administrador da insolvência substitui o insolvente em todas as acções
referidas nos números anteriores, independentemente da apensação ao processo de
insolvência e do acordo da parte contrária.
Artigo 86.º
Apensação de processos de insolvência
1 - A requerimento do administrador da insolvência são apensados aos autos os
processos em que haja sido declarada a insolvência de pessoas que legalmente
respondam pelas dívidas do insolvente ou, tratando-se de pessoa singular casada,
do seu cônjuge, se o regime de bens não for o da separação.
2 - O mesmo se aplica, sendo o devedor uma sociedade comercial, relativamente
aos processos em que tenha sido declarada a insolvência de sociedades que, nos
termos do Código das Sociedades Comerciais, ela domine ou com ela se encontrem
em relação de grupo.
3 - Quando os processos corram termos em tribunais com diferente competência em
razão da matéria, a apensação só é determinada se for requerida pelo
administrador da insolvência do processo instaurado em tribunal de competência
especializada.
Artigo 87.º
Convenções arbitrais
1 - Fica suspensa a eficácia das convenções arbitrais em que o insolvente seja
parte, respeitantes a litígios cujo resultado possa influenciar o valor da
massa, sem prejuízo do disposto em tratados internacionais aplicáveis.
2 - Os processos pendentes à data da declaração de insolvência prosseguirão
porém os seus termos, sem prejuízo, se for o caso, do disposto no n.º 3 do
artigo 85.º e no n.º 3 do artigo 128.º
Artigo 88.º
Acções executivas
1 - A declaração de insolvência determina a suspensão de quaisquer diligências
executivas ou providências requeridas pelos credores da insolvência que atinjam
os bens integrantes da massa insolvente e obsta à instauração ou ao
prosseguimento de qualquer acção executiva intentada pelos credores da
insolvência; porém, se houver outros executados, a execução prossegue contra
estes.
2 - Tratando-se de execuções que prossigam contra outros executados e não hajam
de ser apensadas ao processo nos termos do n.º 2 do artigo 85.º, é apenas
extraído, e remetido para apensação, traslado do processado relativo ao
insolvente.
Artigo 89.º
Acções relativas a dívidas da massa insolvente
1 - Durante os três meses seguintes à data da declaração de insolvência, não
podem ser propostas execuções para pagamento de dívidas da massa insolvente.
2 - As acções, incluindo as executivas, relativas às dívidas da massa insolvente
correm por apenso ao processo de insolvência, com excepção das execuções por
dívidas de natureza tributária.
CAPÍTULO III
Efeitos sobre os créditos
Artigo 90.º
Exercício dos créditos sobre a insolvência
Os credores da insolvência apenas poderão exercer os seus direitos em
conformidade com os preceitos do presente Código, durante a pendência do
processo de insolvência.
Artigo 91.º
Vencimento imediato de dívidas
1 - A declaração de insolvência determina o vencimento de todas as obrigações do
insolvente não subordinadas a uma condição suspensiva.
2 - Toda a obrigação ainda não exigível à data da declaração de insolvência pela
qual não fossem devidos juros remuneratórios, ou pela qual fossem devidos juros
inferiores à taxa de juros legal, considera-se reduzida para o montante que, se
acrescido de juros calculados sobre esse mesmo montante, respectivamente, à taxa
legal, ou a uma taxa igual à diferença entre a taxa legal e a taxa
convencionada, pelo período de antecipação do vencimento, corresponderia ao
valor da obrigação em causa.
3 - Tratando-se de obrigação fraccionada, o disposto no número anterior é
aplicável a cada uma das prestações ainda não exigíveis.
4 - No cômputo do período de antecipação do vencimento considera-se que este
ocorreria na data em que as obrigações se tornassem exigíveis, ou em que
provavelmente tal ocorreria, sendo essa data indeterminada.
5 - A redução do montante da dívida, prevista nos números anteriores, é também
aplicável ainda que tenha ocorrido a perda do benefício do prazo, decorrente da
situação de insolvência ainda não judicialmente declarada, prevista no n.º 1 do
artigo 780.º do Código Civil.
6 - A sub-rogação nos direitos do credor decorrente do cumprimento pelo
insolvente de uma obrigação de terceiro terá lugar na proporção da quantia paga
relativamente ao montante da dívida desse terceiro, actualizado nos termos do
n.º 2.
7 - O disposto no número anterior aplica-se ao direito de regresso face a outros
condevedores.
Artigo 92.º
Planos de regularização
O vencimento imediato, nos termos do n.º 1 do artigo anterior, de dívidas
abrangidas em plano de regularização de impostos e de contribuições para a
segurança social tem os efeitos que os diplomas legais respectivos atribuem ao
incumprimento do plano, sendo os montantes exigíveis calculados em conformidade
com as normas pertinentes desses diplomas.
Artigo 93.º
Créditos por alimentos
O direito a exigir alimentos do insolvente relativo a período posterior à
declaração de insolvência só pode ser exercido contra a massa se nenhuma das
pessoas referidas no artigo 2009.º do Código Civil estiver em condições de os
prestar, e apenas se o juiz o autorizar, fixando o respectivo montante.
Artigo 94.º
Créditos sob condição resolutiva
No processo de insolvência, os créditos sobre a insolvência sujeitos a condição
resolutiva são tratados como incondicionados até ao momento em que a condição se
preencha, sem prejuízo do dever de restituição dos pagamentos recebidos,
verificada que seja a condição.
Artigo 95.º
Responsáveis solidários e garantes
1 - O credor pode concorrer pela totalidade do seu crédito a cada uma das
diferentes massas insolventes de devedores solidários e garantes, sem embargo de
o somatório das quantias que receber de todas elas não poder exceder o montante
do crédito.
2 - O direito contra o devedor insolvente decorrente do eventual pagamento
futuro da dívida por um condevedor solidário ou por um garante só pode ser
exercido no processo de insolvência, como crédito sob condição suspensiva, se o
próprio credor da referida dívida a não reclamar.
Artigo 96.º
Conversão de créditos
1 - Para efeitos da participação do respectivo titular no processo:
a) Os créditos não pecuniários são atendidos pelo valor em euros estimável à
data da declaração de insolvência;
b) Os créditos pecuniários cujo montante não esteja determinado são atendidos
pelo valor em euros estimável à data da declaração de insolvência;
c) Os créditos expressos em moeda estrangeira ou índices são atendidos pelo
valor em euros à cotação em vigor à data da declaração de insolvência no lugar
do respectivo pagamento.
2 - Os créditos referidos nas alíneas a) e c) do número anterior consideram-se
definitivamente convertidos em euros, uma vez reconhecidos.
Artigo 97.º
Extinção de privilégios creditórios e garantias reais
1 - Extinguem-se, com a declaração de insolvência:
a) Os privilégios creditórios gerais que forem acessórios de créditos sobre a
insolvência de que forem titulares o Estado, as autarquias locais e as
instituições de segurança social constituídos mais de 12 meses antes da data do
início do processo de insolvência;
b) Os privilégios creditórios especiais que forem acessórios de créditos sobre a
insolvência de que forem titulares o Estado, as autarquias locais e as
instituições de segurança social vencidos mais de 12 meses antes da data do
início do processo de insolvência;
c) As hipotecas legais cujo registo haja sido requerido dentro dos dois meses
anteriores à data do início do processo de insolvência, e que forem acessórias
de créditos sobre a insolvência do Estado, das autarquias locais e das
instituições de segurança social;
d) Se não forem independentes de registo, as garantias reais sobre imóveis ou
móveis sujeitos a registo integrantes da massa insolvente, acessórias de
créditos sobre a insolvência e já constituídas, mas ainda não registadas nem
objecto de pedido de registo;
e) As garantias reais sobre bens integrantes da massa insolvente acessórias dos
créditos havidos como subordinados.
2 - Declarada a insolvência, não é admissível o registo de hipotecas legais que
garantam créditos sobre a insolvência, inclusive após o encerramento do
processo, salvo se o pedido respectivo tiver sido apresentado em momento
anterior ao da referida declaração, ou, tratando-se das hipotecas a que alude a
alínea c) do número anterior, com uma antecedência de dois meses sobre a mesma
data.
Artigo 98.º
Concessão de privilégio ao credor requerente
1 - Os créditos não subordinados do credor a requerimento de quem a situação de
insolvência tenha sido declarada passam a beneficiar de privilégio creditório
geral, graduado em último lugar, sobre todos os bens móveis integrantes da massa
insolvente, relativamente a um quarto do seu montante, num máximo correspondente
a 500 unidades de conta.
2 - Se o prosseguimento de um processo intentado por um credor for prejudicado
pela declaração de insolvência do devedor em processo posteriormente instaurado,
o privilégio referido no número anterior é atribuído ao requerente no processo
mais antigo; no caso previsto na alínea b) do n.º 3 do artigo 264.º, o
privilégio geral sobre os bens móveis próprios do cônjuge apresentante e sobre a
sua meação nos bens móveis comuns compete ao requerente no processo instaurado
em primeiro lugar, sem embargo da suspensão dos seus termos.
Artigo 99.º
Compensação
1 - Sem prejuízo do estabelecido noutras disposições deste Código, a partir da
declaração de insolvência os titulares de créditos sobre a insolvência só podem
compensá-los com dívidas à massa desde que se verifique pelo menos um dos
seguintes requisitos:
a) Ser o preenchimento dos pressupostos legais da compensação anterior à data da
declaração da insolvência;
b) Ter o crédito sobre a insolvência preenchido antes do contra-crédito da massa
os requisitos estabelecidos no artigo 847.º do Código Civil.
2 - Para os efeitos das alíneas a) e b) do número anterior, não relevam:
a) A perda de benefício de prazo prevista no n.º 1 do artigo 780.º do Código
Civil;
b) O vencimento antecipado e a conversão em dinheiro resultantes do preceituado
no n.º 1 do artigo 91.º e no artigo 96.º
3 - A compensação não é prejudicada pelo facto de as obrigações terem por
objecto divisas ou unidades de cálculo distintas, se for livre a sua conversão
recíproca no lugar do pagamento do contra-crédito, tendo a conversão lugar à
cotação em vigor nesse lugar na data em que a compensação produza os seus
efeitos.
4 - A compensação não é admissível:
a) Se a dívida à massa se tiver constituído após a data da declaração de
insolvência, designadamente em consequência da resolução de actos em benefício
da massa insolvente;
b) Se o credor da insolvência tiver adquirido o seu crédito de outrem, após a
data da declaração de insolvência;
c) Com dívidas do insolvente pelas quais a massa não seja responsável;
d) Entre dívidas à massa e créditos subordinados sobre a insolvência.
Artigo 100.º
Suspensão da prescrição e caducidade
A sentença de declaração da insolvência determina a suspensão de todos os prazos
de prescrição e de caducidade oponíveis pelo devedor, durante o decurso do
processo.
Artigo 101.º
Sistemas de liquidação
As normas constantes deste capítulo são aplicáveis sem prejuízo do que em
contrário se estabelece nos artigos 283.º e seguintes do Código de Valores
Mobiliários.
CAPÍTULO IV
Efeitos sobre os negócios em curso
Artigo 102.º
Princípio geral quanto a negócios ainda não cumpridos
1 - Sem prejuízo do disposto nos artigos seguintes, em qualquer contrato
bilateral em que, à data da declaração de insolvência, não haja ainda total
cumprimento nem pelo insolvente nem pela outra parte, o cumprimento fica
suspenso até que o administrador da insolvência declare optar pela execução ou
recusar o cumprimento.
2 - A outra parte pode, contudo, fixar um prazo razoável ao administrador da
insolvência para este exercer a sua opção, findo o qual se considera que recusa
o cumprimento.
3 - Recusado o cumprimento pelo administrador da insolvência, e sem prejuízo do
direito à separação da coisa, se for o caso:
a) Nenhuma das partes tem direito à restituição do que prestou;
b) A massa insolvente tem o direito de exigir o valor da contraprestação
correspondente à prestação já efectuada pelo devedor, na medida em que não tenha
sido ainda realizada pela outra parte;
c) A outra parte tem direito a exigir, como crédito sobre a insolvência, o valor
da prestação do devedor, na parte incumprida, deduzido do valor da
contraprestação correspondente que ainda não tenha sido realizada;
d) O direito à indemnização dos prejuízos causados à outra parte pelo
incumprimento:
i) Apenas existe até ao valor da obrigação eventualmente imposta nos termos da
alínea b);
ii) É abatido do quantitativo a que a outra parte tenha direito, por aplicação
da alínea c);
iii) Constitui crédito sobre a insolvência;
e) Qualquer das partes pode declarar a compensação das obrigações referidas nas
alíneas c) e d) com a aludida na alínea b), até à concorrência dos respectivos
montantes.
4 - A opção pela execução é abusiva se o cumprimento pontual das obrigações
contratuais por parte da massa insolvente for manifestamente improvável.
Artigo 103.º
Prestações indivisíveis
1 - Se o contrato impuser à outra parte o cumprimento de prestação que tenha
natureza infungível, ou que seja fraccionável na entrega de várias coisas, não
facilmente substituíveis, entre as quais interceda uma conexão funcional, e o
administrador da insolvência recusar o cumprimento:
a) O direito referido na alínea b) do n.º 3 do artigo anterior é substituído
pelo direito de exigir à outra parte a restituição do que lhe tiver sido
prestado, na medida do seu enriquecimento à data da declaração de insolvência;
b) O direito previsto na alínea c) do n.º 3 do artigo anterior tem por objecto a
diferença, se favorável à outra parte, entre os valores da totalidade das
prestações contratuais;
c) A outra parte tem direito, como credor da insolvência, ao reembolso do custo
ou à restituição do valor da parte da prestação realizada anteriormente à
declaração de insolvência, consoante tal prestação seja ou não infungível.
2 - A outra parte tem direito, porém, a completar a sua prestação, e a exigir,
como crédito sobre a insolvência, a parte da contraprestação em dívida, caso em
que cessa o disposto no n.º 1 e no artigo anterior.
3 - Se o administrador da insolvência não recusar o cumprimento, o direito da
outra parte à contraprestação só constitui crédito sobre a massa no que exceda o
valor do que seria apurado por aplicação do disposto na alínea c) do n.º 1, caso
o administrador da insolvência tivesse optado pela recusa do cumprimento.
4 - Sendo o cumprimento de uma prestação do tipo das referidas no n.º 1 imposto
pelo contrato ao insolvente, e recusando o administrador esse cumprimento:
a) O direito referido na alínea b) do n.º 3 do artigo anterior cessa ou é
substituído pelo direito à restituição do valor da parte da prestação já
efectuada anteriormente à declaração de insolvência, consoante essa prestação
tenha ou não natureza infungível;
b) Aplica-se o disposto na alínea b) do n.º 1, tendo a outra parte,
adicionalmente, direito ao reembolso do que já tiver prestado, também como
crédito sobre a insolvência.
5 - Sendo o cumprimento de uma prestação do tipo das referidas no n.º 1 imposto
por contrato ao insolvente e não recusando o administrador esse cumprimento, o
direito da outra parte à contraprestação em dívida constitui, na sua
integralidade, crédito sobre a massa.
6 - Se a prestação de natureza infungível se desdobrar em parcelas autónomas e
alguma ou algumas destas já tiverem sido efectuadas, o disposto nos números
anteriores apenas se aplica às demais, repartindo-se a contraprestação por todas
elas, pela forma apropriada.
Artigo 104.º
Venda com reserva de propriedade e operações semelhantes
1 - No contrato de compra e venda com reserva de propriedade em que o vendedor
seja o insolvente, a outra parte poderá exigir o cumprimento do contrato se a
coisa já lhe tiver sido entregue na data da declaração da insolvência.
2 - O disposto no número anterior aplica-se, em caso de insolvência do locador,
ao contrato de locação financeira e ao contrato de locação com a cláusula de que
a coisa locada se tornará propriedade do locatário depois de satisfeitas todas
as rendas pactuadas.
3 - Sendo o comprador ou o locatário o insolvente, e encontrando-se ele na posse
da coisa, o prazo fixado ao administrador da insolvência, nos termos do n.º 2 do
artigo 102.º, não pode esgotar-se antes de decorridos cinco dias sobre a data da
assembleia de apreciação do relatório, salvo se o bem for passível de
desvalorização considerável durante esse período e a outra parte advertir
expressamente o administrador da insolvência dessa circunstância.
4 - A cláusula de reserva de propriedade, nos contratos de alienação de coisa
determinada em que o comprador seja o insolvente, só é oponível à massa no caso
de ter sido estipulada por escrito, até ao momento da entrega da coisa.
5 - Os efeitos da recusa de cumprimento pelo administrador, quando admissível,
são os previstos no n.º 3 do artigo 102.º, entendendo-se que o direito
consignado na respectiva alínea c) tem por objecto o pagamento, como crédito
sobre a insolvência, da diferença, se positiva, entre o montante das prestações
ou rendas previstas até final do contrato, actualizadas para a data da
declaração de insolvência por aplicação do estabelecido no n.º 2 do artigo 91.º,
e o valor da coisa na data da recusa, se a outra parte for o vendedor ou
locador, ou da diferença, se positiva, entre este último valor e aquele
montante, caso ela seja o comprador ou o locatário.
Artigo 105.º
Venda sem entrega
1 - Sem prejuízo do disposto no artigo 107.º, se a obrigação de entrega por
parte do vendedor ainda não tiver sido cumprida, mas a propriedade já tiver sido
transmitida:
a) O administrador da insolvência não pode recusar o cumprimento do contrato, no
caso de insolvência do vendedor;
b) A recusa de cumprimento pelo administrador da insolvência, no caso de
insolvência do comprador, tem os efeitos previstos no n.º 5 do artigo anterior,
aplicável com as necessárias adaptações.
2 - O disposto no número anterior é igualmente aplicável, com as devidas
adaptações, aos contratos translativos de outros direitos reais de gozo.
Artigo 106.º
Promessa de contrato
1 - No caso de insolvência do promitente-vendedor, o administrador da
insolvência não pode recusar o cumprimento de contrato-promessa com eficácia
real, se já tiver havido tradição da coisa a favor do promitente-comprador.
2 - À recusa de cumprimento de contrato-promessa de compra e venda pelo
administrador da insolvência é aplicável o disposto no n.º 5 do artigo 104.º,
com as necessárias adaptações, quer a insolvência respeite ao
promitente-comprador quer ao promitente-vendedor.
3 - [Revogado.]
Artigo 107.º
Operações a prazo
1 - Se a entrega de mercadorias, ou a realização de prestações financeiras, que
tenham um preço de mercado, tiver de se efectuar em determinada data ou dentro
de certo prazo, e a data ocorrer ou o prazo se extinguir depois de declarada a
insolvência, a execução não pode ser exigida por nenhuma das partes, e o
comprador ou vendedor, consoante o caso, tem apenas direito ao pagamento da
diferença entre o preço ajustado e o preço de mercado do bem ou prestação
financeira no 2.º dia posterior ao da declaração de insolvência, relativamente a
contratos com a mesma data ou prazo de cumprimento, a qual, sendo exigível ao
insolvente, constitui crédito sobre a insolvência.
2 - Em qualquer dos casos, o vendedor restituirá as importâncias já pagas,
podendo compensar tal obrigação com o crédito que lhe seja conferido pelo número
anterior, até à concorrência dos respectivos montantes; sendo o vendedor o
insolvente, o direito à restituição constitui para a outra parte crédito sobre a
insolvência.
3 - Para efeitos do disposto no número anterior consideram-se prestações
financeiras, designadamente:
a) A entrega de valores mobiliários, excepto se se tratar de acções
representativas de, pelo menos, 10% do capital da sociedade, e não tiver
carácter meramente financeiro a liquidação contratualmente prevista;
b) A entrega de metais preciosos;
c) Os pagamentos em dinheiro cujo montante seja directa ou indirectamente
determinado pela taxa de câmbio de uma divisa estrangeira, pela taxa de juro
legal, por uma unidade de cálculo ou pelo preço de outros bens ou serviços;
d) Opções ou outros direitos à venda ou à entrega de bens referidos nas alíneas
a) e b) ou a pagamentos referidos na alínea c).
4 - Integrando-se vários negócios sobre prestações financeiras num contrato
quadro ao qual só possa pôr-se termo unitariamente no caso de incumprimento, o
conjunto de tais negócios é havido como um contrato bilateral, para efeitos
deste artigo e do artigo 102.º
5 - Às operações a prazo não abrangidas pelo n.º 1 é aplicável o disposto no n.º
5 do artigo 104.º, com as necessárias adaptações.
Artigo 108.º
Locação em que o locatário é o insolvente
1 - A declaração de insolvência não suspende o contrato de locação em que o
insolvente seja locatário, mas o administrador da insolvência pode sempre
denunciá-lo com um pré-aviso de 60 dias, se nos termos da lei ou do contrato não
for suficiente um pré-aviso inferior.
2 - Exceptua-se do número anterior o caso de o locado se destinar à habitação do
insolvente, caso em que o administrador da insolvência poderá apenas declarar
que o direito ao pagamento de rendas vencidas depois de transcorridos 60 dias
sobre tal declaração não será exercível no processo de insolvência, ficando o
senhorio, nessa hipótese, constituído no direito de exigir, como crédito sobre a
insolvência, indemnização dos prejuízos sofridos em caso de despejo por falta de
pagamentos de alguma ou algumas das referidas rendas, até ao montante das
correspondentes a um trimestre.
3 - A denúncia do contrato pelo administrador da insolvência facultada pelo n.º
1 obriga ao pagamento, como crédito sobre a insolvência, das retribuições
correspondentes ao período intercedente entre a data de produção dos seus
efeitos e a do fim do prazo contratual estipulado, ou a data para a qual de
outro modo teria sido possível a denúncia pelo insolvente, deduzidas dos custos
inerentes à prestação do locador por esse período, bem como dos ganhos obtidos
através de uma aplicação alternativa do locado, desde que imputáveis à
antecipação do fim do contrato, com actualização de todas as quantias, nos
termos do n.º 2 do artigo 91.º, para a data de produção dos efeitos da denúncia.
4 - O locador não pode requerer a resolução do contrato após a declaração de
insolvência do locatário com algum dos seguintes fundamentos:
a) Falta de pagamento das rendas ou alugueres respeitantes ao período anterior à
data da declaração de insolvência;
b) Deterioração da situação financeira do locatário.
5 - Não tendo a coisa locada sido ainda entregue ao locatário à data da
declaração de insolvência deste, tanto o administrador da insolvência como o
locador podem resolver o contrato, sendo lícito a qualquer deles fixar ao outro
um prazo razoável para o efeito, findo o qual cessa o direito de resolução.
Artigo 109.º
Locação em que o insolvente é o locador
1 - A declaração de insolvência não suspende a execução de contrato de locação
em que o insolvente seja locador, e a sua denúncia por qualquer das partes
apenas é possível para o fim do prazo em curso, sem prejuízo dos casos de
renovação obrigatória.
2 - Se, porém, a coisa ainda não tiver sido entregue ao locatário à data da
declaração de insolvência, é aplicável o disposto no n.º 5 do artigo anterior,
com as devidas adaptações.
3 - A alienação da coisa locada no processo de insolvência não priva o locatário
dos direitos que lhe são reconhecidos pela lei civil em tal circunstância.
Artigo 110.º
Contratos de mandato e de gestão
1 - Os contratos de mandato, incluindo os de comissão, que não se mostre serem
estranhos à massa insolvente, caducam com a declaração de insolvência do
mandante, ainda que o mandato tenha sido conferido também no interesse do
mandatário ou de terceiro, sem que o mandatário tenha direito a indemnização
pelo dano sofrido.
2 - Considera-se, porém, que o contrato de mandato se mantém:
a) Caso seja necessária a prática de actos pelo mandatário para evitar prejuízos
previsíveis para a massa insolvente, até que o administrador da insolvência tome
as devidas providências;
b) Pelo período em que o mandatário tenha exercido funções desconhecendo, sem
culpa, a declaração de insolvência do mandante.
3 - A remuneração e o reembolso de despesas do mandatário constitui dívida da
massa insolvente, na hipótese da alínea a) do número anterior, e dívida da
insolvência, na hipótese da alínea b).
4 - O disposto nos números anteriores é aplicável, com as devidas adaptações, a
quaisquer outros contratos pelos quais o insolvente tenha confiado a outrem a
gestão de assuntos patrimoniais, com um mínimo de autonomia, nomeadamente a
contratos de gestão de carteiras e de gestão do património.
Artigo 111.º
Contrato de prestação duradoura de serviço
1 - Os contratos que obriguem à realização de prestação duradoura de um serviço
no interesse do insolvente, e que não caduquem por efeito do disposto no artigo
anterior, não se suspendem com a declaração de insolvência, podendo ser
denunciados por qualquer das partes nos termos do n.º 1 do artigo 108.º,
aplicável com as devidas adaptações.
2 - A denúncia antecipada do contrato só obriga ao ressarcimento do dano causado
no caso de ser efectuada pelo administrador da insolvência, sendo a indemnização
nesse caso calculada, com as necessárias adaptações, nos termos do n.º 3 do
artigo 108.º, e constituindo para a outra parte crédito sobre a insolvência.
Artigo 112.º
Procurações
1 - Salvo nos casos abrangidos pela alínea a) do n.º 2 do artigo 110.º, com a
declaração de insolvência do representado caducam as procurações que digam
respeito ao património integrante da massa insolvente, ainda que conferidas
também no interesse do procurador ou de terceiro.
2 - Aos actos praticados pelo procurador depois da caducidade da procuração é
aplicável o disposto nos n.os 6 e 7 do artigo 81.º, com as necessárias
adaptações.
3 - O procurador que desconheça sem culpa a declaração de insolvência do
representado não é responsável perante terceiros pela ineficácia do negócio
derivada da falta de poderes de representação.
Artigo 113.º
Insolvência do trabalhador
1 - A declaração de insolvência do trabalhador não suspende o contrato de
trabalho.
2 - O ressarcimento de prejuízos decorrentes de uma eventual violação dos
deveres contratuais apenas podem ser reclamados ao próprio insolvente.
Artigo 114.º
Prestação de serviço pelo devedor
1 - O disposto no artigo anterior aplica-se aos contratos pelos quais o
insolvente, sendo uma pessoa singular, esteja obrigado à prestação de um
serviço, salvo se este se integrar na actividade da empresa de que for titular e
não tiver natureza infungível.
2 - Sem prejuízo do disposto no número anterior, aos contratos que tenham por
objecto a prestação duradoura de um serviço pelo devedor aplica-se o disposto no
artigo 111.º, com as necessárias adaptações, mas o dever de indemnizar apenas
existe se for da outra parte a iniciativa da denúncia.
Artigo 115.º
Cessão e penhor de créditos futuros
1 - Sendo o devedor uma pessoa singular e tendo ele cedido ou dado em penhor,
anteriormente à declaração de insolvência, créditos futuros emergentes de
contrato de trabalho ou de prestação de serviços, ou o direito a prestações
sucedâneas futuras, designadamente subsídios de desemprego e pensões de reforma,
a eficácia do negócio ficará limitada aos rendimentos respeitantes ao período
anterior à data de declaração de insolvência, ao resto do mês em curso nesta
data e aos 24 meses subsequentes.
2 - A eficácia da cessão realizada ou de penhor constituído pelo devedor
anteriormente à declaração de insolvência que tenha por objecto rendas ou
alugueres devidos por contrato de locação que o administrador da insolvência não
possa denunciar ou resolver, nos termos, respectivamente, do n.º 2 do artigo
104.º e do n.º 1 do artigo 109.º, fica limitada, seja ou não o devedor uma
pessoa singular, às que respeitem ao período anterior à data de declaração de
insolvência, ao resto do mês em curso nesta data e ao mês subsequente.
3 - O devedor por créditos a que se reportam os números anteriores pode
compensá-los com dívidas à massa, sem prejuízo do disposto na alínea b) do n.º 1
e nas alíneas b) a d) do n.º 4 do artigo 99.º
Artigo 116.º
Contas correntes
A declaração de insolvência implica o termo dos contratos de conta corrente em
que o insolvente seja parte, com o encerramento das contas respectivas.
Artigo 117.º
Associação em participação
1 - A associação em participação extingue-se pela insolvência do contraente
associante.
2 - O contraente associado é obrigado a entregar à massa insolvente do
associante a sua parte, ainda não satisfeita, nas perdas em que deva participar,
conservando, porém, o direito de reclamar, como crédito sobre a insolvência, as
prestações que tenha realizado e não devam ser incluídas na sua participação nas
perdas.
Artigo 118.º
Agrupamento complementar de empresas e agrupamento europeu de interesse
económico
1 - Sem prejuízo de disposição diversa do contrato, o agrupamento complementar
de empresas e o agrupamento europeu de interesse económico não se dissolvem em
consequência da insolvência de um ou mais membros do agrupamento.
2 - O membro declarado insolvente pode exonerar-se do agrupamento complementar
de empresas.
3 - É nula a cláusula do contrato que obrigue o membro declarado insolvente a
indemnizar os danos causados aos restantes membros ou ao agrupamento.
Artigo 119.º
Normas imperativas
1 - É nula qualquer convenção das partes que exclua ou limite a aplicação das
normas anteriores do presente capítulo.
2 - É em particular nula a cláusula que atribua à situação de insolvência de uma
das partes o valor de uma condição resolutiva do negócio ou confira nesse caso à
parte contrária um direito de indemnização, de resolução ou de denúncia em
termos diversos dos previstos neste capítulo.
3 - O disposto nos números anteriores não obsta que a situação de insolvência
possa configurar justa causa de resolução ou de denúncia em atenção à natureza e
conteúdo das prestações contratuais.
CAPÍTULO V
Resolução em benefício da massa insolvente
Artigo 120.º
Princípios gerais
1 - Podem ser resolvidos em benefício da massa insolvente os actos prejudiciais
à massa praticados ou omitidos dentro dos quatro anos anteriores à data do
início do processo de insolvência.
2 - Consideram-se prejudiciais à massa os actos que diminuam, frustrem,
dificultem, ponham em perigo ou retardem a satisfação dos credores da
insolvência.
3 - Presumem-se prejudiciais à massa, sem admissão de prova em contrário, os
actos de qualquer dos tipos referidos no artigo seguinte, ainda que praticados
ou omitidos fora dos prazos aí contemplados.
4 - Salvo nos casos a que respeita o artigo seguinte, a resolução pressupõe a má
fé do terceiro, a qual se presume quanto a actos cuja prática ou omissão tenha
ocorrido dentro dos dois anos anteriores ao início do processo de insolvência e
em que tenha participado ou de que tenha aproveitado pessoa especialmente
relacionada com o insolvente, ainda que a relação especial não existisse a essa
data.
5 - Entende-se por má fé o conhecimento, à data do acto, de qualquer das
seguintes circunstâncias:
a) De que o devedor se encontrava em situação de insolvência;
b) Do carácter prejudicial do acto e de que o devedor se encontrava à data em
situação de insolvência iminente;
c) Do início do processo de insolvência.
Artigo 121.º
Resolução incondicional
1 - São resolúveis em benefício da massa insolvente os actos seguidamente
indicados, sem dependência de quaisquer outros requisitos:
a) Partilha celebrada menos de um ano antes da data do início do processo de
insolvência em que o quinhão do insolvente haja sido essencialmente preenchido
com bens de fácil sonegação, cabendo aos co-interessados a generalidade dos
imóveis e dos valores nominativos;
b) Actos celebrados pelo devedor a título gratuito dentro dos dois anos
anteriores à data do início do processo de insolvência, incluindo o repúdio de
herança ou legado, com excepção dos donativos conformes aos usos sociais;
c) Constituição pelo devedor de garantias reais relativas a obrigações
preexistentes ou de outras que as substituam, nos seis meses anteriores à data
de início do processo de insolvência;
d) Fiança, subfiança, aval e mandatos de crédito, em que o insolvente haja
outorgado no período referido na alínea anterior e que não respeitem a operações
negociais com real interesse para ele;
e) Constituição pelo devedor de garantias reais em simultâneo com a criação das
obrigações garantidas, dentro dos 60 dias anteriores à data do início do
processo de insolvência;
f) Pagamento ou outros actos de extinção de obrigações cujo vencimento fosse
posterior à data do início do processo de insolvência, ocorridos nos seis meses
anteriores à data do início do processo de insolvência, ou depois desta mas
anteriormente ao vencimento;
g) Pagamento ou outra forma de extinção de obrigações efectuados dentro dos seis
meses anteriores à data do início do processo de insolvência em termos não
usuais no comércio jurídico e que o credor não pudesse exigir;
h) Actos a título oneroso realizados pelo insolvente dentro do ano anterior à
data do início do processo de insolvência em que as obrigações por ele assumidas
excedam manifestamente as da contraparte;
i) Reembolso de suprimentos, quando tenha lugar dentro do mesmo período referido
na alínea anterior.
2 - O disposto no número anterior cede perante normas legais que
excepcionalmente exijam sempre a má fé ou a verificação de outros requisitos.
Artigo 122.º
Sistemas de pagamentos
Não podem ser objecto de resolução actos compreendidos no âmbito de um sistema
de pagamentos tal como definido pela alínea a) do artigo 2.º da Directiva n.º
98/26/CE, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 19 de Maio, ou
equiparável.
Artigo 123.º
Forma de resolução e prescrição do direito
1 - A resolução pode ser efectuada pelo administrador da insolvência por carta
registada com aviso de recepção nos seis meses seguintes ao conhecimento do
acto, mas nunca depois de decorridos dois anos sobre a data da declaração de
insolvência.
2 - Enquanto, porém, o negócio não estiver cumprido, pode a resolução ser
declarada, sem dependência de prazo, por via de excepção.
Artigo 124.º
Oponibilidade a transmissários
1 - A oponibilidade da resolução do acto a transmissários posteriores pressupõe
a má fé destes, salvo tratando-se de sucessores a título universal ou se a nova
transmissão tiver ocorrido a título gratuito.
2 - O disposto no número anterior é aplicável, com as necessárias adaptações, à
constituição de direitos sobre os bens transmitidos em benefício de terceiro.
Artigo 125.º
Impugnação da resolução
O direito de impugnar a resolução caduca no prazo de seis meses, correndo a
acção correspondente, proposta contra a massa insolvente, como dependência do
processo de insolvência.
Artigo 126.º
Efeitos da resolução
1 - A resolução tem efeitos retroactivos, devendo reconstituir-se a situação que
existiria se o acto não tivesse sido praticado ou omitido, consoante o caso.
2 - A acção intentada pelo administrador da insolvência com a finalidade
prevista no número anterior é dependência do processo de insolvência.
3 - Ao terceiro que não apresente os bens ou valores que hajam de ser
restituídos à massa dentro do prazo fixado na sentença são aplicadas as sanções
previstas na lei de processo para o depositário de bens penhorados que falte à
oportuna entrega deles.
4 - A restituição do objecto prestado pelo terceiro só tem lugar se o mesmo
puder ser identificado e separado dos que pertencem à parte restante da massa.
5 - Caso a circunstância prevista no número anterior não se verifique, a
obrigação de restituir o valor correspondente constitui dívida da massa
insolvente na medida do respectivo enriquecimento à data da declaração da
insolvência, e dívida da insolvência quanto ao eventual remanescente.
6 - A obrigação de restituir a cargo do adquirente a título gratuito só existe
na medida do seu próprio enriquecimento, salvo o caso de má fé, real ou
presumida.
Artigo 127.º
Impugnação pauliana
1 - É vedado aos credores da insolvência a instauração de novas acções de
impugnação pauliana de actos praticados pelo devedor cuja resolução haja sido
declarada pelo administrador da insolvência.
2 - As acções de impugnação pauliana pendentes à data da declaração da
insolvência ou propostas ulteriormente não serão apensas ao processo de
insolvência, e, em caso de resolução do acto pelo administrador da insolvência,
só prosseguirão os seus termos se tal resolução vier a ser declarada ineficaz
por decisão definitiva, a qual terá força vinculativa no âmbito daquelas acções
quanto às questões que tenha apreciado, desde que não ofenda caso julgado de
formação anterior.
3 - Julgada procedente a acção de impugnação, o interesse do credor que a tenha
instaurado é aferido, para efeitos do artigo 616.º do Código Civil, com
abstracção das modificações introduzidas ao seu crédito por um eventual plano de
insolvência ou de pagamentos.
TÍTULO V
Verificação dos créditos.
Restituição e separação de bens
CAPÍTULO I
Verificação de créditos
Artigo 128.º
Reclamação de créditos
1 - Dentro do prazo fixado para o efeito na sentença declaratória da
insolvência, devem os credores da insolvência, incluindo o Ministério Público na
defesa dos interesses das entidades que represente, reclamar a verificação dos
seus créditos por meio de requerimento, acompanhado de todos os documentos
probatórios de que disponham, no qual indiquem:
a) A sua proveniência, data de vencimento, montante de capital e de juros;
b) As condições a que estejam subordinados, tanto suspensivas como resolutivas;
c) A sua natureza comum, subordinada, privilegiada ou garantida, e, neste último
caso, os bens ou direitos objecto da garantia e respectivos dados de
identificação registral, se aplicável;
d) A existência de eventuais garantias pessoais, com identificação dos garantes;
e) A taxa de juros moratórios aplicável.
2 - O requerimento é endereçado ao administrador da insolvência, e apresentado
no seu domicílio profissional ou para aí remetido por via postal registada,
devendo o administrador, respectivamente, assinar no acto de entrega, ou enviar
ao credor no prazo de três dias, comprovativo do recebimento.
3 - A verificação tem por objecto todos os créditos sobre a insolvência,
qualquer que seja a sua natureza e fundamento, e mesmo o credor que tenha o seu
crédito reconhecido por decisão definitiva não está dispensado de o reclamar no
processo de insolvência, se nele quiser obter pagamento.
Artigo 129.º
Relação de créditos reconhecidos e não reconhecidos
1 - Nos 15 dias subsequentes ao termo do prazo das reclamações, o administrador
da insolvência apresenta na secretaria uma lista de todos os credores por si
reconhecidos e uma lista dos não reconhecidos, ambas por ordem alfabética,
relativamente não só aos que tenham deduzido reclamação como àqueles cujos
direitos constem dos elementos da contabilidade do devedor ou sejam por outra
forma do seu conhecimento.
2 - Da lista dos credores reconhecidos consta a identificação de cada credor, a
natureza do crédito, o montante de capital e juros à data do termo do prazo das
reclamações, as garantias pessoais e reais, os privilégios, a taxa de juros
moratórios aplicável, e as eventuais condições suspensivas ou resolutivas.
3 - A lista dos credores não reconhecidos indica os motivos justificativos do
não reconhecimento.
4 - Todos os credores não reconhecidos, bem como aqueles cujos créditos forem
reconhecidos sem que os tenham reclamado, ou em termos diversos dos da
respectiva reclamação, devem ser disso avisados pelo administrador da
insolvência, por carta registada, com observância, com as devidas adaptações, do
disposto nos artigos 40.º a 42.º do Regulamento (CE) n.º
1346/2000, do Conselho, de 29 de Maio, tratando-se de credores com
residência habitual, domicílio ou sede em outros Estados membros da União
Europeia que não tenham já sido citados nos termos do n.º 3 do artigo 37.º
Artigo 130.º
Impugnação da lista de credores reconhecidos
1 - Nos 10 dias seguintes ao termo do prazo fixado no n.º 1 do artigo anterior,
pode qualquer interessado impugnar a lista de credores reconhecidos através de
requerimento dirigido ao juiz, com fundamento na indevida inclusão ou exclusão
de créditos, ou na incorrecção do montante ou da qualificação dos créditos
reconhecidos.
2 - Relativamente aos credores avisados por carta registada, o prazo de 10 dias
conta-se a partir do 3.º dia útil posterior à data da respectiva expedição.
3 - Se não houver impugnações, é de imediato proferida sentença de verificação e
graduação dos créditos, em que, salvo o caso de erro manifesto, se homologa a
lista de credores reconhecidos elaborada pelo administrador da insolvência e se
graduam os créditos em atenção ao que conste dessa lista.
Artigo 131.º
Resposta à impugnação
1 - Pode responder a qualquer das impugnações o administrador da insolvência e
qualquer interessado que assuma posição contrária, incluindo o devedor.
2 - Se, porém, a impugnação se fundar na indevida inclusão de certo crédito na
lista de credores reconhecidos, na omissão da indicação das condições a que se
encontre sujeito ou no facto de lhe ter sido atribuído um montante excessivo ou
uma qualificação de grau superior à correcta, só o próprio titular pode
responder.
3 - A resposta deve ser apresentada dentro dos 10 dias subsequentes ao termo do
prazo referido no artigo anterior ou à notificação ao titular do crédito objecto
da impugnação, consoante o caso, sob pena de a impugnação ser julgada
procedente.
Artigo 132.º
Autuação das impugnações e respostas
As listas de créditos reconhecidos e não reconhecidos pelo administrador da
insolvência, as impugnações e as respostas são autuadas por um único apenso.
Artigo 133.º
Exame das reclamações e dos documentos de escrituração do insolvente
Durante o prazo fixado para as impugnações e as respostas, e a fim de poderem
ser examinados por qualquer interessado e pela comissão de credores, deve o
administrador da insolvência patentear as reclamações de créditos, os documentos
que as instruam e os documentos da escrituração do insolvente no local mais
adequado, o qual é objecto de indicação no final nas listas de credores
reconhecidos e não reconhecidos.
Artigo 134.º
Meios de prova, cópias e dispensa de notificação
1 - Às impugnações e às respostas é aplicável o disposto no n.º 2 do artigo 25.º
2 - São apenas oferecidos pelo requerente ou, no caso de apresentação em suporte
digital, extraídos pela secretaria, dois duplicados dos articulados e dos
documentos que os acompanhem, um dos quais se destina ao arquivo do tribunal,
ficando o outro na secretaria judicial, para consulta dos interessados.
3 - Exceptua-se o caso em que a impugnação tenha por objecto créditos
reconhecidos e não seja apresentada pelo próprio titular, em que se juntará ou
será extraída uma cópia adicional, para entrega ao respectivo titular.
4 - As impugnações apenas serão objecto de notificação aos titulares de créditos
a que respeitem, se estes não forem os próprios impugnantes.
5 - Durante o prazo para impugnações e respostas, o processo é mantido na
secretaria judicial para exame e consulta dos interessados.
Artigo 135.º
Parecer da comissão de credores
Dentro dos 10 dias posteriores ao termo do prazo das respostas às impugnações,
deve a comissão de credores juntar aos autos o seu parecer sobre as impugnações.
Artigo 136.º
Saneamento do processo
1 - Junto o parecer da comissão de credores ou decorrido o prazo previsto no
artigo anterior sem que tal junção se verifique, o juiz designa dia e hora para
uma tentativa de conciliação a realizar dentro dos 10 dias seguintes, para a
qual são notificados, a fim de comparecerem pessoalmente ou de se fazerem
representar por procuradores com poderes especiais para transigir, todos os que
tenham apresentado impugnações e respostas, a comissão de credores e o
administrador da insolvência.
2 - Na tentativa de conciliação são considerados como reconhecidos os créditos
que mereçam a aprovação de todos os presentes e nos precisos termos em que o
forem.
3 - Concluída a tentativa de conciliação, o processo é imediatamente concluso ao
juiz, para que seja proferido despacho, nos termos previstos nos artigos 510.º e
511.º do Código de Processo Civil.
4 - Consideram-se sempre reconhecidos os créditos incluídos na respectiva lista
e não impugnados e os que tiverem sido aprovados na tentativa de conciliação.
5 - Consideram-se ainda reconhecidos os demais créditos que possam sê-lo face
aos elementos de prova contidos nos autos.
6 - O despacho saneador tem, quanto aos créditos reconhecidos, a forma e o valor
de sentença, que os declara verificados e os gradua em harmonia com as
disposições legais.
7 - Se a verificação de algum dos créditos necessitar de produção de prova, a
graduação de todos os créditos tem lugar na sentença final.
Artigo 137.º
Diligências instrutórias
Havendo diligências probatórias a realizar antes da audiência de discussão e
julgamento, o juiz ordena as providências necessárias para que estejam
concluídas dentro do prazo de 20 dias a contar do despacho que as tiver
determinado, aproveitando a todos os interessados a prova produzida por qualquer
deles.
Artigo 138.º
Designação de dia para a audiência
Produzidas as provas ou expirado o prazo marcado nas cartas, é marcada a
audiência de discussão e julgamento para um dos 10 dias posteriores.
Artigo 139.º
Audiência
Na audiência de julgamento são observados os termos estabelecidos para o
processo declaratório sumário, com as seguintes especialidades:
a) Sempre que necessário, serão ouvidos, na altura em que o tribunal o
determine, quer o administrador da insolvência, quer a comissão de credores;
b) As provas são produzidas segundo a ordem por que tiverem sido apresentadas as
impugnações;
c) Na discussão, podem usar da palavra, em primeiro lugar, os advogados dos
impugnantes e depois os dos respondentes, não havendo lugar a réplica.
Artigo 140.º
Sentença
1 - Finda a audiência de julgamento, o juiz profere sentença de verificação e
graduação dos créditos, nos 10 dias subsequentes.
2 - A graduação é geral para os bens da massa insolvente e é especial para os
bens a que respeitem direitos reais de garantia e privilégios creditórios.
3 - Na graduação de créditos não é atendida a preferência resultante de hipoteca
judicial, nem a proveniente da penhora, mas as custas pagas pelo autor ou
exequente constituem dívidas da massa insolvente.
CAPÍTULO II
Restituição e separação de bens
Artigo 141.º
Aplicabilidade das disposições relativas à reclamação e verificação de créditos
1 - As disposições relativas à reclamação e verificação